quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Presente de Natal


Este ano, por razões várias, passo o Natal no Sul do Midlewest dos Estados Unidos, mais precisamente em Oklahoma. O governo estadual tem um programa de apoio aos seus prisioneiros, em que as pessoas podem enviar cartões de Natal e mesmo alguns presentes, em especial àqueles detidos que não recebem a visita de ninguém, nem cartas, nem nada.
Como minha irmã decidiu este ano envolver-se no programa, ao ponto de dizer que a nossa participação nesse projecto era o único presente de Natal que queria, também me envolvi. Afinal, estando eu cá fora, livre, de saúde e até com algum dinheiro, é o mínimo que poderia fazer por alguém que hoje sofre, não me interessando para nada as razões pelas quais foi encarcerado. O meu inglês não é muito famoso, pelo que pedi a minha irmã, nascida americana, que me ajudasse e dando-lhe algumas instruções básicas, e dei-lhe 'carta branca' para actuar. Deste modo, em meu nome e a meu pedido, mandou um cartão de Natal para um dos detidos no 'Mc Leod Correctional Center'.
Ontem à noite, um outro prisioneiro, o nosso contacto de lá de dentro, telefonou-nos e contou-nos que o destinatário do meu cartão de Natal, fora ter com ele emocionado e disse-lhe: 'Deus me abençoou este Natal. Um homem de Portugal, que não me conhece sequer, enviou-me um cartão de Natal. Deus o dirigiu para me abençoar e eu poder receber este cartão antes do ano acabar'. Este prisioneiro, desde que está encarcerado, nunca recebeu nenhuma carta dos familiares ou amigos. Este pequeno e simples cartão foi o seu presente de Natal. O melhor de todos.
Este é o ministério cristão por excelência. Não se trata de gritar aos sete-ventos que a minha igreja é melhor que a do meu vizinho, ou que a minha maneira de me aproximar de Deus é melhor que a maneira de se aproximar de Deus do meu vizinho, que nem é cristão. Trata-se simplesmente de fazer a vontade de Deus: 'Estava na prisão e me visitaste' (Mateus 25, 34-36)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Não temais

'Não temas', disse o Anjo a Zacarias, para anunciar a concepção de João Baptista. E ele, apesar das condições adversas, aceitou o repto de Deus.
'Não temas', disse o Anjo a Maria, quando lhe anunciou que conceberia Jesus, pelo Espírito Santo. E ela, humildemente, aceitou a tarefa que lhe foi imposta: 'Eis aqui a serva do Senhor'.
'Não temais', disse o Anjo aos pastores e este acorreram a Belém para adorar o filho de Deus, recém-nascido.
'Não temas', disse Jesus a Simão e aos seus companheiros e estes abandonaram a sua barca e as suas redes e O seguiram-no.
'Não temas'. É uma frase-chave, várias vezes citada no Evangelho de S. Lucas (Lcs 1, 13; 1, 30; 2, 10; 5, 10) colorido de tantos factos da vida de Jesus. É a frase-chave com que Deus nos convida para a Sua missão.
E já no Antigo Testamento, muitas vezes chama ao Seu ministério os profetas, com esta mesma frase, como no caso de Josué (Josué 1, 9).
Este é um 'não temas' que implica a confiança e fé totais no Dom de Deus. Pode implicar uma mudança de vida, da vida que até agora conhecemos, trocada por uma nova vida iluminada pela vontade de Deus e onde tudo toma uma perspectiva diferente. E as mudanças quase nunca são fáceis e suscitam muitos temores. Jesus disse: 'Se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a vida vai perdê-la, mas quem perde a vida por amor a mim, esse a salvará' (Lcs 9, 23-24).
O convite de Deus é um convite às mudanças, mas também um convite tremendo, por vezes assustador, e é por isso que Deus também apela à confiança, Ele mesmo ou através dos Seus enviados: 'Não temais'. Este não temer é cada um receber o Reino de Deus com a mesma atitude com que uma criança recebe os dons dos seus pais (Lcs 18, 17), pois 'O Senhor teu Deus está contigo por onde quer que andes'. (Josué 1, 9)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal

Giotto (1266-1337) A natividade (1303-1305) in Capella della’Arena, em Pádua, Itália

Estamos nos últimos dias do Advento e este é um bom momento para recuperar a escrita neste blog: Natal celebra a Vida, através do nascimento de Jesus.
Estamos na 'corrida final' das compras dos presentes, na perspectiva de magníficas refeições repletas de iguarias. Muitos de nós, nesta altura do ano, estamos absolutamente dominados pelos ídolos do dinheiro e do consumismo, onde o Natal perdeu o seu sentido original, para ser dominado pelas manifestações de poder e opulência materialistas, mesmo que não sejam reais, como cenários de papel de um palco de teatro, e marcados através da quantidade de compras que fazemos. Reunimos as famílias em celebrações cada vez mais agnósticas, onde o lúdico ocupou, muitas vezes completamente, o espiritual.
O Natal perdeu, ainda , o seu sentido cristão quando, em nome de um 'politicamente correcto' se apagam as suas referências originais, onde se chega a proibir as referências cristãs nas iluminações públicas da época. E Natal existe, precisa e exclusivamente, porque Jesus nasceu!
Natal é ainda a celebração da Vida, através de Jesus, o filho de Deus, enviado para nos salvar. É a celebração da nova vida de que nos fala S. Paulo (Efs. 2,4-6), onde morre o homem velho, dominado pelo pecado, para, em Cristo, renascer o homem novo, no espírito de Deus.
Recuperemos, pois, o espírito original do Natal, dando azo a mudarmos a nossa vida, reflectindo na oferta que Deus nos faz através do Seu Filho e tão bem expressa no anúncio do Anjo aos pastores: 'Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo:Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo Senhor, na cidade de David (Lucas 2, 10-11).
E com o Anjo e a 'multidão do exército celeste' exultemos nestes dias 'Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens por Ele amados' (Lucas 2, 14)