terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Medo que não é medo


Temer ao Senhor,

é o princípio da Sabedoria

(Salmo 111, 10)


Conheço muitas pessoas que são ateias.

Conheço muitas pessoas que são agnósticas.

Conheço muitas pessoas que sob a citação de Karl Marx, "A Religião é o ópio do povo", são abertamente antagónicas à religião e à Igreja. Estas pessoas acusam a religião de ser alienante, e a igreja de usar a religião como instrumento para manipular as pessoas, ao serviço das elites detentoras do poder humano.

E ler este salmo, "Temer ao Senhor é o princípio da Sabedoria", parece confirmar as opiniões destas pessoas: Meter medo é a chave para se alcançar qualquer coisa.

Mas o que é este temer a Deus, cantado pelo salmista? É ter pânico de Deus, fugir Dele?

Quem sofreu a cruel perseguição dos homens, pela guerra, pela tortura, pelo abuso de toda a natureza, agredido até aos limites da sobrevivência, sabe o que é ter medo, um sentimento que nos leva à fuga. Mas este medo do sofrimento, da morte, não é o medo a Deus referido pelo salmista.

Deus não amedronta ninguém, não vem atrás de nós de forma vingativa e gratuita. Deus não nos quer afastar, mas sim atrair a Ele. Deus apenas quer que, o respeitando, cumpramos a Sua Vontade. E a Sua Vontade é a da concórdia e do amor fraterno entre as pessoas. Este temer ao Senhor, não é ter medo de Deus, mas sim O respeitar e respeitar a Sua Vontade, expressa através do ministério de Seu Filho, Jesus. É amar Deus e confiar a nossa vida nas Suas Mãos.

S. Paulo, na sua 1ª Carta aos Coríntios, 6, 12, refere: "Tudo me é permitido, nem tudo me é conveniente". Há pois, aqui, uma sabedoria, a sabedoria de saber escolher que é bom para cada um de nós, sem nos deixarmos dominar. Porque, é o que não me é conveniente que me pode dominar, escravizar, isso sim, alienar.

E esta sabedoria começa, justamente, pelo respeito para com Deus e a Sua Vontade.

Temer ao Senhor, no sentido de, segundo escreveu S. Hilário, haver uma preocupação de não contrariar o dom do amor é então a chave para a verdadeira libertação: a libertação do Espírito e a libertação da "morte segunda", a que se referia S. Francisco, no "Cântico das Criaturas":


Louvado sejas, meu Senhor,

Por nossa irmã a Morte corporal,

Da qual homem algum pode escapar.


Ai dos que morrerem em pecado mortal!

Felizes os que ela achar

Conformes à tua santíssima vontade,

Porque a morte segunda não lhes fará mal!


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Crescer

Giotto di Bondone (Itália, 1266/1337) - Virgem e o Menino entronizados. Galeria dos Uffizi, Florença, Itália.




Estamos já todos mais calmos, depois que passaram as festas: O Natal e o Ano Novo e com ele associado o debate se entrámos ou não numa nova década. Dependerá se o 0 (zero) vai antes do 1 ou depois do 9. Mas esse é um debate que me passa ao lado. O que importa é que esta é uma época de renovação, para a generalidade das pessoas.
Neste domingo com que se começou a presente semana, fui posto face à frase: "Jesus crescia em conhecimento e estatura e na graça de Deus e dos homens", do Evangelho de S. Lucas (2, 52).
Uma boa frase para se reflectir nos dias a seguir a termos feitos os nossos propósitos de mudança do Ano Novo. "Jesus crescia em conhecimento"- Ele é o Filho de Deus, está com o Pai e com o Pai tem a mesma natureza. No entanto, é também um humilde menino que cresce, que aprende. E isto me leva a pensar que a Fé não é um dado adquirido e parado no tempo, na vida dos crentes. A Fé é algo que está em constante crescimento. Como o grão de mostarda da parábola (Mateus 13, 31-33), que germina e cresce até se tornar numa grande árvore. Jesus cresce... Assim, a seu exemplo cresça a nossa fé constantemente, numa vontade cada vez maior de cumprir a Palavra de Deus e de confiar em Jesus e em Deus Pai.
Segundo este texto do Evangelho de S. Lucas, Jesus cresce também em estatura, ganha força física. Mente sã em corpo são. Se o cristão deve ter o valor de proclamar a sua fé, também deve procurar ter uma vida saudável, criando o melhor suporte físico que garanta a continuidade do seu ministério. Não se tem de ser um atleta, basta ser-se saudável ou, pelo menos, fazer por ser saudável.
Contudo não quer isto dizer que os doentes estejam excluídos do cristianismo e de darem o seu testemunho de fé. Bem pelo contrário, a eles está reservado um outro papel: o testemunho da aceitação máxima daquilo que Deus lhes reserva, o testemunho da humildade e da aceitação da vontade de Deus que deve reinar em nossos corações, levado à última consequência.
Crescer na graça de Deus. Um convite que, novamente através da pessoa de Jesus, nos é feito. E o que é este crescer na graça de Deus? Seguir a sua Palavra, fazer a Sua Vontade. Aceitar o dom de Deus. Maria, ao aceitar o seu papel no plano de Deus, como mãe de Jesus, ficou plena da graça do Senhor (Lucas 1, 28-30). O mesmo se passou com os discípulos que acompanham Jesus quando, na ascensão deste aos céus, recebem a graça do Espirito Santo (Acts 2, 1). Em cada dia, podemos crescer mais na graça de Deus, se nos empenharmos na nossa fé e nas boas obras para com os nossos irmãos: dando-lhe atenção, sendo gentis para com eles, os ajudando nas suas dificuldades, nos momentos em que estão doentes, do corpo e da mente. E é justamente na prática das boas obras para com os que nos rodeiam que está a última premissa do crescimento de Jesus, segundo os versículos de S. Lucas: crescer na qualidade da amizade. Que esta não seja uma falsa amizade interesseira ou apenas uma amizade superficial, mas profunda. A amizade em nome de Jesus, que nos leva a interessar verdadeiramente pelos que nos rodeiam, a cuidar deles, das suas necessidades, materiais, certamente e na medida das nossas possibilidades, mas sobretudo as necessidades espirituais, emocionais, bastando uma palavra amiga, um sorriso, um abraço caloroso. Enfim, sermos os bons samaritanos (Lucas 10, 30-37).

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Presente de Natal


Este ano, por razões várias, passo o Natal no Sul do Midlewest dos Estados Unidos, mais precisamente em Oklahoma. O governo estadual tem um programa de apoio aos seus prisioneiros, em que as pessoas podem enviar cartões de Natal e mesmo alguns presentes, em especial àqueles detidos que não recebem a visita de ninguém, nem cartas, nem nada.
Como minha irmã decidiu este ano envolver-se no programa, ao ponto de dizer que a nossa participação nesse projecto era o único presente de Natal que queria, também me envolvi. Afinal, estando eu cá fora, livre, de saúde e até com algum dinheiro, é o mínimo que poderia fazer por alguém que hoje sofre, não me interessando para nada as razões pelas quais foi encarcerado. O meu inglês não é muito famoso, pelo que pedi a minha irmã, nascida americana, que me ajudasse e dando-lhe algumas instruções básicas, e dei-lhe 'carta branca' para actuar. Deste modo, em meu nome e a meu pedido, mandou um cartão de Natal para um dos detidos no 'Mc Leod Correctional Center'.
Ontem à noite, um outro prisioneiro, o nosso contacto de lá de dentro, telefonou-nos e contou-nos que o destinatário do meu cartão de Natal, fora ter com ele emocionado e disse-lhe: 'Deus me abençoou este Natal. Um homem de Portugal, que não me conhece sequer, enviou-me um cartão de Natal. Deus o dirigiu para me abençoar e eu poder receber este cartão antes do ano acabar'. Este prisioneiro, desde que está encarcerado, nunca recebeu nenhuma carta dos familiares ou amigos. Este pequeno e simples cartão foi o seu presente de Natal. O melhor de todos.
Este é o ministério cristão por excelência. Não se trata de gritar aos sete-ventos que a minha igreja é melhor que a do meu vizinho, ou que a minha maneira de me aproximar de Deus é melhor que a maneira de se aproximar de Deus do meu vizinho, que nem é cristão. Trata-se simplesmente de fazer a vontade de Deus: 'Estava na prisão e me visitaste' (Mateus 25, 34-36)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Não temais

'Não temas', disse o Anjo a Zacarias, para anunciar a concepção de João Baptista. E ele, apesar das condições adversas, aceitou o repto de Deus.
'Não temas', disse o Anjo a Maria, quando lhe anunciou que conceberia Jesus, pelo Espírito Santo. E ela, humildemente, aceitou a tarefa que lhe foi imposta: 'Eis aqui a serva do Senhor'.
'Não temais', disse o Anjo aos pastores e este acorreram a Belém para adorar o filho de Deus, recém-nascido.
'Não temas', disse Jesus a Simão e aos seus companheiros e estes abandonaram a sua barca e as suas redes e O seguiram-no.
'Não temas'. É uma frase-chave, várias vezes citada no Evangelho de S. Lucas (Lcs 1, 13; 1, 30; 2, 10; 5, 10) colorido de tantos factos da vida de Jesus. É a frase-chave com que Deus nos convida para a Sua missão.
E já no Antigo Testamento, muitas vezes chama ao Seu ministério os profetas, com esta mesma frase, como no caso de Josué (Josué 1, 9).
Este é um 'não temas' que implica a confiança e fé totais no Dom de Deus. Pode implicar uma mudança de vida, da vida que até agora conhecemos, trocada por uma nova vida iluminada pela vontade de Deus e onde tudo toma uma perspectiva diferente. E as mudanças quase nunca são fáceis e suscitam muitos temores. Jesus disse: 'Se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a vida vai perdê-la, mas quem perde a vida por amor a mim, esse a salvará' (Lcs 9, 23-24).
O convite de Deus é um convite às mudanças, mas também um convite tremendo, por vezes assustador, e é por isso que Deus também apela à confiança, Ele mesmo ou através dos Seus enviados: 'Não temais'. Este não temer é cada um receber o Reino de Deus com a mesma atitude com que uma criança recebe os dons dos seus pais (Lcs 18, 17), pois 'O Senhor teu Deus está contigo por onde quer que andes'. (Josué 1, 9)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal

Giotto (1266-1337) A natividade (1303-1305) in Capella della’Arena, em Pádua, Itália

Estamos nos últimos dias do Advento e este é um bom momento para recuperar a escrita neste blog: Natal celebra a Vida, através do nascimento de Jesus.
Estamos na 'corrida final' das compras dos presentes, na perspectiva de magníficas refeições repletas de iguarias. Muitos de nós, nesta altura do ano, estamos absolutamente dominados pelos ídolos do dinheiro e do consumismo, onde o Natal perdeu o seu sentido original, para ser dominado pelas manifestações de poder e opulência materialistas, mesmo que não sejam reais, como cenários de papel de um palco de teatro, e marcados através da quantidade de compras que fazemos. Reunimos as famílias em celebrações cada vez mais agnósticas, onde o lúdico ocupou, muitas vezes completamente, o espiritual.
O Natal perdeu, ainda , o seu sentido cristão quando, em nome de um 'politicamente correcto' se apagam as suas referências originais, onde se chega a proibir as referências cristãs nas iluminações públicas da época. E Natal existe, precisa e exclusivamente, porque Jesus nasceu!
Natal é ainda a celebração da Vida, através de Jesus, o filho de Deus, enviado para nos salvar. É a celebração da nova vida de que nos fala S. Paulo (Efs. 2,4-6), onde morre o homem velho, dominado pelo pecado, para, em Cristo, renascer o homem novo, no espírito de Deus.
Recuperemos, pois, o espírito original do Natal, dando azo a mudarmos a nossa vida, reflectindo na oferta que Deus nos faz através do Seu Filho e tão bem expressa no anúncio do Anjo aos pastores: 'Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo:Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo Senhor, na cidade de David (Lucas 2, 10-11).
E com o Anjo e a 'multidão do exército celeste' exultemos nestes dias 'Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens por Ele amados' (Lucas 2, 14)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ao encontro do Deserto

(Ermitério do padre Foucauld na Argélia)

Estamos em vésperas da Páscoa. Para os cristãos este é o momento mais importante da sua vivência religiosa: Cristo passa pelo processo através do qual leva a salvação a todos os que O seguem.
Não me vou alongar em considerações teológicas sobre este assunto. Mas falar da experiência que me está para vir. Dentro de poucas horas parto para o Norte de África, numa missão de solidariedade com os povos do Sahara. Vou para o deserto. Vai ser uma experiência interessante a continuação de algum diálogo ecuménico com estes muçulmanos sunitas: afinal somos todos filhos de um mesmo Deus. Vai ser um encontro com os locais das primeiras expansões do Cristianismo. Basta, por exemplo, lembrar que Santo Agostinho era do Norte de África. Vai ser um encontro com o ambiente de excepção que tanto inspirou Charles de Foucauld e que o levou a uma vivência única da mensagem cristã. Sobretudo desejo que seja, uma vez mais, um encontro com Deus. Um encontro com Deus nesta altura especial da celebração pascal.
A Paz de Cristo convosco todos. Que a memória da Paixão de Jesus, inspire os vossos corações e a vossa Fé.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Entre o grito e o silêncio


Há momentos que Deus nos leva a gritar: a gritar a Sua Mensagem, a gratidão por Ele nos acompanhar, por nos dar a Vida. Mas há outros momentos, em que Deus nos chama a apenas sussurrar ou mesmo ao silêncio, para ouvirmos as nossas vozes interiores, a forma como Ele fala nas nossas almas. São as travessias no deserto, que se nos põem como desafios à nossa Fé, à reflexão sobre o que estamos a desempenhar nas nossas vidas.
Actualmente passamos por momentos de grandes dificuldades, assolados pelo espectro da crise, que de uma forma ou outra, mais ou menos profundamente, nos toca. Um momento de reflexão.
Terminado o Carnaval, no calendário católico, entrou-se no período da Quaresma. Se em tempos passados, a própria Igreja Católica, usou o ideal deste período que antecede a Páscoa, para fins muito pouco evangélicos, não devemos, porém recusar olhar para o significado deste período de jejum e abstinência. Talvez hoje não faça tanto sentido a abstinência de se comer carne às sextas-feiras, quando o peixe já é mais caro que a carne. Talvez hoje não faça tanto sentido o jejum dos alimentos, quando o dia-a-dia já nos leva a desequilíbrios brutais na nossa qualidade de vida. Mas fará todo o sentido a abstinência como disciplina das nossas vidas, com vista ao cumprimento da Vontade de Deus, o jejum dos bens e das atitudes com vista à partilha com aqueles que ainda têm menos que nós: não só a partilha dos bens materiais mas também a partilha das atenções e dos sentimentos.
Fará sentido na Quaresma reflectir na pergunta: "Porque odiei a disciplina e o meu coração desdenhou a correcção? (Prov. 5.12).
A paz de Deus em vossos corações
Fará sentido a abstinência como disciplina das nossas vidas