segunda-feira, 28 de julho de 2008

Deus nos convida

Cristo Redentor- Baía de Guanabara- Rio de Janeiro

No capítulo inicial do Livro de Isaías, depois de afirmar que não suporta a falsidade, Deus deixa os sinais do caminho que leva a Ele:
'Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos actos de diante dos meus olhos. Cessai de fazer o mal.
'Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor, defendei o direito do órfão, pleiteai a causa as viúvas.
'Vinde pois e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, ele se tornarão brancos como a neve, ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.
'Se quiserdes e se me ouvirdes, comereis o melhor desta terra.
'Mas se recursardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada, porque a boca do Senhor o disse" (Isaias 1. 16-20).
Lavarmo-nos e purificarmo-nos. Não é o lavar físico, mas o lavar espiritual. Limpar os nossos pensamentos do mal, pedir ao Senhor que não nos deixe cair na tentação e, se ela nos toca, que nos livre do mal. E ao mesmo tempo, tomarmos a atitude do Amor e da Justiça para com o próximo, em o defendendo e o respeitando.
Deus nos convida a ir ter com Ele e a pensarmos com a razão sobre as nossas faltas: reflectirmos sobre os nossos actos e tomarmos arrependimento daqueles que fizémos e nos afastaram de seguir a Vontade de Deus. É esse arrependimento que, aos olhos de Deus, nos lava e purifica.
Deus nos convida e, ainda assim, continua a dar-nos a liberdade: ' se quiserdes e se me ouvirdes'. Basta querer para podermos ouvir o Senhor, nas múltiplas vozes que fala connosco: através da Biblia, mas também beleza do que nos cerca, através dos sonhos que temos e dos pensamentos que nos advém quando nos entregamos a Deus e pedimos que nos fale pelo Espírito Santo, através da pregação na Igreja, através das palavras dos nossos amigos verdadeiros e que também são amigos d'Ele.
Deus nos convida e promete que comeremos o melhor que há nesta terra. Mas Deus não se refere às iguarias mundanas. O melhor e mais raro ou caro dos pratos gastronómicos termina do mesmo modo que a comida mais simples e banal. E isso é pouco. Não, o que Deus nos fala é de outro alimento, muito mais rico, muito mais compensador. Jesus disse: 'O verdadeiro pão do céu é o meu Pai. Porque o pão que Deus dá é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo(...) Eu sou o Pão da Vida. Quem vem a Mim nunca mais terá fome, e quem crê em Mim nunca mais terá sede.' (Jo. 6. 30-35). É este Pão, esta Palavra de Vida de que Deus fala e promete.
Deus nos convida e nos avisa, também, que tendo-O conhecido e mantivermos a rebeldia, dos nossos actos teremos as consequências. E continua a dar-nos a liberdade de escolha...

Lamento de Deus




(Profeta Isaías - António Francisco Lisboa, O Aleijadinho, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos - Congonhas - Minas Gerais -foto de Carlos Eduardo Fiusa Morais)



'Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim' (Isaís 1. 2)
O Livro de Isaías começa com um lamento do próprio Deus. E este lamento é expressão da Misericórdia divina, porque sendo Deus todo-poderoso, podia muito bem, sem ter de dar contas a ninguém, extinguir, assim de uma penada, aqueles que estão revoltados contra Ele. No caso do tempo de Isaías, o próprio povo de Israel.
Deixemos o povo de Isreal do tempo de Isaías e olhemos para o povo do nosso tempo, nós e as pessoas que nos cercam. E continua a haver multidões de pessoas revoltadas contra Deus. E o lamento feito em sonhos proféticos a Isaías, continua actual nos dias de hoje. Porque quando Deus se lamenta do esquecimento, da ingratidão dos homens, Ele apenas está avisando, em vez de nos destruir furiosamente.
Criando-nos à Sua imagem e semelhança, Deus deu-nos a liberdade do livre arbítrio. Que liberdade maior pode haver, essa de escolhermos o caminho que quisermos? Mas também, que responsabilidade acarretamos aos nossos ombros! São as escolhas que fizermos que ditarão o nosso futuro. Não só na terra, enquanto tivermos esta vida primeira, mas e sobretudo, depois, quando tivermos a vida segunda: ou na Glória de Deus ou no sofrimento do Demónio.
Deus deu-nos a liberdade de escolha, mas por causa da Sua misericórdia não nos aniquila quando nos desviamos do Seu caminho, pelo contrário, se lamenta, nos avisa. E isto porque Deus espera sempre o nosso arrependimento, a nossa entrega a Ele, até ao último momento, aquele, a partir do qual apenas recebemos o que semeamos ao longo da nossa vida.
Entregarmo-nos a Deus, não é só pedir-lhe aquilo que necessitamos mas, sobretudo, mostrarmos-Lhe a nossa gratidão por cada momento que temos na nossa vida. Se não nos esquecemos de Deus, quando as coisas nos estão adversas, também não nos esquecemos d'Ele quando as coisas nos vão de feição.
E quando as coisas não nos correm como desejamos, devemos pensar, em vez de gritarmos de revolta contra Deus, se não estamos a ser postos à prova. Se não é a nossa Fé e a nossa confiança em Deus que está a ser testada, para se tornar mais forte?
A Confiança em Deus nos vossos corações

terça-feira, 15 de julho de 2008

Mais do que a fé, o amor

Michelangelo Buonarroti (1475-1564)
Profeta Zacarias - tecto da Capela Sistina, Vaticano. 1508-1512

Cerca de meio milénio antes de Cristo, os israelitas regressaram a Jerusalém, depois do cativeiro da Babilónia. É nesta altura que o Senhor fala ao profeta Zacarias. Embora seja considerado um dos profetas menores, não deixa de ser interessante olhar o seu livro.
É um momento especial na história de Israel. No quarto ano do rei babilónio Dário, os israelitas reconstroem o Templo, e ao mesmo tempo querem o favor de Deus. Durante o tempo do cativeiro, setenta anos, jejuaram duas vezes por ano, em penitência e voto para regressar à Terra Prometida. Agora já estão lá e perguntam aos sacerdotes e profetas se devem ou não manter esse jejum para agradar ao Senhor. E Deus revela-se a Zacarias. Mostra que o jejum praticado durante o cativeiro não era para benefício de Deus, mas para benefício dos cativos. Se a comida e a bebida era para benefício de cada um, como o jejum – a ausência dessa comida e dessa bebida - podia ser benefício para Deus? Nada tinha que ver uma coisa com a outra.
E Deus revela a Zacarias o que verdadeiramente lhe agrada: “Executai juízo verdadeiro, mostrai bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu coração, o mal contra o seu próximo”(Zac. 7. 9-10).
Estas palavras mantêm-se válidas, milhares de anos depois de terem sido reveladas. Porque a Palavra de Deus é perene. Jesus ensina a mesma coisa e o apóstolo Paulo, na revelação do Espírito Santo, a mesma coisa fala.
Com efeito, de pouco valem os actos exteriores de manifestação religiosa - os jejuns, a frequência dos ofícios religiosos, etc – se em nossos corações não escutarmos a Palavra de Deus, não a seguirmos nem a praticarmos. De nada nos serve a Fé, se ela não for acompanhada do Amor, que é a materialização do que Deus nos ensina. A confiança em Deus, mas igualmente, a prática da Sua Vontade que é a do Amor. Amor para com Deus, certamente, mas igualmente, amor para com o próximo.
O apóstolo Paulo afirma que de nada serve o conhecimento, a cultura, ou até a profecia e a fé ou, ainda um desfazer-se de todos os seus bens a favor dos pobres, se não tiver amor. E quando fala em Amor, é o amor de dentro do coração. É o Amor da humildade, da mansidão e da concórdia. É o Amor que não se alegra com a desgraça alheia, nem divulga a malidicência e a inveja e que é paciente, sabe esperar com confiança.
Nem sempre é fácil. Nem sempre conseguimos calar os actos que são contra o Amor de Deus. Mas por isso que existe o arrependimento, a humildade de reconhecer o erro, perante Deus e os irmãos. E se pedido com coração sincero, a Misericórdia de Deus, através de Jesus Cristo, limpa as nossas faltas.

Mostrai pois, em cada dia, em cada momento, a bondade e a misericórdia. E Deus será satisfeito e abençoará, quem se importa com Ele e com a Sua Palavra.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Louvores



Louvem o nome do Senhor,
Porque só o seu nome é excelso. (Salmo 148. 13)

Louvar ao Senhor... Cantar a sua glória, mas igualmente, mostrar gratidão. Louvar implica gratidão. E gratidão é algo que muito se perde no mundo, nos dias de hoje.
Mas devemo-nos mostrar gratos a Deus por tudo: pelo dia bonito com que nos defrontamos ao sair de casa, pela amizade dos nossos amigos. Um sorriso anónimo mas puro que nos toca na rua. Um gosto de brisa fresca num dia quente de Verão. Isso é fácil.
Mas também devemos louvar pelas contrariedades, porque é com elas que aprendemos e crescemos, progredimos no nosso caminho, somos chamados a pensar sobre as coisas e a tomar novas direcções, se for caso disso. No momento das contrariedades é difícil parar. Estamos aflitos, revoltados, na verdade a nossa alma está toldada. O demónio aproveita esses momentos para fazer crescer a semente da revolta na alma de cada um de nós, até conseguir o seu objectivo principal: a revolta total do Homem para com Deus, tal como ele fez.
É pois nesses momentos, que devemos pedir a Deus, em nome de Jesus Cristo, que sejamos tocados pelo Espírito Santo, na serenidade e na sabedoria. E criarmos o espaço para reflectirmos com raciocínio sobre o que nos está acontecendo, retirarmos as nossas conclusões e louvarmos ao Senhor por nos ter dado essa oportunidade de não continuarmos cegos no nosso caminho, porventura, até nos esquecendo e afastando de Deus.
E é nestas coisas que o nome do Senhor é excelso, isto é, grande e maravilhoso, porque mesmo permitindo as contrariedades, não deixa de concorrer para o bem daqueles que O amam. E Amar ao Senhor é ouvir a Sua palavra, segui-la e cumpri-la e confiar completamente em Deus, que Ele cumpre as Suas promessas aos que O amam.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Vara de amendoeira


Veio ainda a palavra do Senhor, dizendo: Que vês tu, Jeremias? Respondi: vejo uma vara de amendoeira. Disse-me o Senhor: Viste bem, porque Eu velo sobre a minha Palavra para a cumprir (Jer. 1. 11-12)

Ao longo das nossas vidas temos momentos melhores e piores. Há dias em que as nossas almas rejubilam, mas outros, estamos caídos, sentindo-nos no fundo dos mais fundos dos escuros poços.
São aqueles dias em que nos falta a paciência para tudo. Tudo nos incomoda, tudo nos farta e ficamos cegos para as coisas boas que nos rodeia. Ficamos cegos até para os dons de Deus e fechamos o nosso coração.
São os momentos de atribulação, em que o demónio vê as brechas da nossa imperfeição e aproveita para se imiscuir e destruir o trabalho de Deus em nós. E, no entanto, o Senhor está atento. Ele não nos desampara. Nós não vimos a Sua obra, porque a tristeza e o desalento nos impedem de ver. Mas essa obra está presente.
No início do seu ministério como profeta, Jeremias é chamado pelo Senhor, que lhe pergunta o que vê. Jeremias responde que vê a vara da amendoeira e o Senhor reafirma que Ele está atento para cumprir a Sua Palavra. E a sua Palavra é a de conforto para com os que O amam.
É quando estamos mais desalentados que o Senhor mais vela pelo cumprimento da sua Palavra. Mas para isso, temos de manter acesa a chama da Fé. Não podemos deixar que, pelo nosso desalento, o demónio consiga instalar a descrença nas nossas almas, apartando da Vida em Deus.
Não é preciso grandes fórmulas para falar com Deus. Basta o nosso coração estar de verdade ansiando por Ele. Basta olhar para a vara de amendoeira e recordar com confiança a promessa de Deus de que vela pelo cumprimento da Sua Palavra. E voltar a deixar entrar nos nossos corações a beleza e alegria das flores brancas da vara da amendoeira, símbolo dos dons do Senhor...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Equidade e Justiça

Francisco Zubaran - 'O Padre Eterno' - 1631/40. Museu de Arte Antiga de Sevilha

‘O ceptro da equidade é o ceptro do Teu Reino. Amaste a justiça e aborreceste a iniquidade.
Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria, mais do que os teus companheiros (Hebreus 1. 8-9)

Dirigindo-se aos judeus, o apóstolo Paulo fala-lhes de Deus, o Deus que eles sempre adoraram, que lhes deu a Terra Prometida e que, por isso, está no âmago da sua própria identidade como povo e nação. Mas Paulo fala-lhes também de uma novidade: o Filho de Deus, Jesus Cristo, de que ele dá o testemunho.
Jesus e Deus estão unidos, porque são Pai e Filho.
Nestas primeiras frases da sua Carta aos Hebreus, Paulo fala da equidade e da justiça, uma e a mesma coisa, porque agindo na equidade, age-se também na justiça.
Mas o que é equidade? No dicionário, o conceito desta palavra prende-se com os conceitos de igualdade e de imparcialidade.
Por isso, vivermos na equidade é vivermos numa relação igual para com o próximo, seja ou não nosso irmão na Fé, como para nós mesmos.
Se alguma coisa é, aos nossos olhos, reprovável ao nosso próximo, também deve ser reprovável para nós. E se uma coisa é boa para nós, também é boa para o nosso próximo.
É a atitude de concorrermos para o Bem. De cada um de nós e de nós todos.
Cristo disse: amai-vos uns aos outros, como a vós mesmos. Isto é equidade. Na única oração que Jesus nos ensinou, o Pai Nosso, pedimos a Deus que nos perdoe os nossos pecados na mesma e justa medida com que nós perdoamos àqueles que nos ofendem. Isto é um compromisso com a equidade e com a justiça. É também o compromisso com a essência do pensamento de Cristo e do desejo de Deus.
Amando esta justiça baseada no Amor de Deus, que Cristo nos legou na forma mais extrema, que chegou a dar-se a uma morte indigna e dolorosa, para remissão dos nossos pecados, então certamente que também estamos na alegria. Não a alegria mundana, espalhafatosa porém oca, mas a alegria da tranquilidade e da paz interior, que só nos advém pelo Espírito Santo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

No grito do desespero

Terramoto de Lisboa- Gravura em Cobre, finais de Século XVIII
Uma irmã em Cristo sofreu numa semana a perda sucessiva de duas pessoas da sua família próxima e que lhe eram queridas. Num momento sentiu-se perdida e sem forças para aguentar e por coincidência, foi nessa altura que lhe telefonei. Ouvi o seu desabafo e a aconselhei o melhor que pude.
Esta situação fez-me lembrar, uma vez mais, a passagem bíblica do Livro de Job.
Job tinha uma vida boa, mas Deus permitiu que o Demónio tudo lhe tirasse, para ver como mesmo no maior do seu sofrimento, ele não abandonaria o seu Deus. E as coisas más, cada uma pior que a outra, sucederam-se na vida de Job. Perdeu os bens, os filhos foram sequestrados e perdeu a própria saúde.
No seu desespero, Job nunca blasfema contra Deus, nunca o renega, mas O interroga. Pergunta-Lhe, mesmo, que mal terá ele feito, para Deus se afastar dele assim?
É um grito, como tantos que lançamos no nosso dia-a-dia, perante os sofrimentos grandes: Onde estás meu Deus? Porque não me escutas? Porque não me auxilias? Que mal Te fiz eu a Ti?
O desespero é próprio do ser humano. É um sentimento animal: quem ainda não viu os animais em fuga desesperada perante o incêndio na floresta ou a batida dos caçadores?
É o desespero que nos leva às interrogações e, no extremo, às imprecações e, mesmo à blasfémia e ao consequente afastamento de Deus. Por isso que o nosso Amor para com Deus e a nossa confiança em que Ele em tudo concorre para o nosso bem, como afirma o apóstolo Paulo (Rms 8. 28), deve ser ainda maior que o nosso desespero.
Job lamenta-se junto dos seus amigos e um deles, Bildade, o suíta, censura Job por arguir com Deus e questiona-o se ele pensa que Deus iria perverter o direito e a justiça. E recomenda: “Mas, se tu buscares a Deus e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia, e se fores puro e recto, Ele, sem demora, despertará em teu favor e restaurará a justiça da tua morada”. (Job 8. 5-6).
É pois, esta, a resposta ao nosso grito de desespero: em vez de revoltarmo-nos contra Deus e de nos sentirmos alvo de injustiça, que apenas nos leva ao deserto estéril, se nesse momento de crise, mais O buscarmos, mais nos apegarmos a Ele, pedindo-lhe a graça da Sua Misericórdia, mantendo a nossa postura de Seu amigo, com a pureza e a rectidão das nossas almas, com a certeza de que Deus, nos envia o Seu Consolador para nos dar as forças que necessitamos.