segunda-feira, 30 de junho de 2008

Fazer ao próximo, fazer a Deus

Liz Lemon Swindle - Deixai vir a Mim as Crianças

"Todo aquele que receber uma criança em Meu nome é a Mim que recebe. E quem Me receber, não recebe só a Mim, mas também Aquele que Me enviou". (Marcos 9 37.)
Esta é uma das mensagens mais bonitas do Evangelho. Porque fala da difícil tarefa da aceitação. Os discípulos vinham pelo caminho discutindo entre eles qual seria o mais importante. Jesus, apercebendo-se dessa querela, responde-lhes que os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros. Ou seja, que a Deus agrada a humildade e não a arrogância. E de seguida, Jesus, apontando para umas crianças, diz que quem receber uma criança em Seu nome é a Ele que recebe e ao mesmo tempo Aquele que O enviou, Deus-Pai, porque o Pai e o Filho são um único.
Jesus vai buscar a comparação com as crianças, porque são os seres mais indefesos e também aqueles que menos se escuta. E a criança é todo o nosso irmão, em especial aquele que sofre e está pior que cada um de nós. Não só fisicamente, mas, sobretudo, espiritual e moralmente e, mesmo materialmente. E, apesar da sua condição, em nome de Jesus e porque seguimos a Sua Palavra, não o tratamos com desprezo, mas com o respeito e Amor cristão.
Nem sempre tal atitude é fácil, mas também, se o fosse, Jesus não a citaria. A Lei Antiga, de Moisés, diz 'amarás o teu amigo como a ti mesmo. Mas hoje dou-vos um mandamento novo: amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mateus 22. 34-40).
Do modo como actuamos com os outros é o mesmo modo como actuamos com Jesus e, por Ele, com o próprio Deus. Não ajudamos apenas os irmãos, mas também a Jesus e a Deus, dando testemunho vivo da nossa Fé e, consequentemente, da nossa postura como seguidores evengélicos de Cristo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Abandonar a Deus


Rembrant, 1606-1669. O Regresso do Filho Pródigo - 1669

'Quando abandonardes o Senhor, para servir a outros deuses, Ele voltar-se-á contra vós e far-vos-á mal e consumir-vos-á, depois de ter feito o bem' ( Jos. 24. 20).

Quase no final do Livro de Josué, ele escreve este diálogo com o Povo de Israel, recomendando fidelidade a Deus.
Ele fala do castigo de Deus se, depois de O aceitarmos na nossa vida, escolhemos abandoná-l'O. Parece ser uma contradição à ideia de um Deus misericordioso, disposto a perdoar os nossos pecados. Mas não é.
É um facto que não somos perfeitos e muitas vezes caímos e entramos por maus caminhos. Faz parte da fraqueza da natureza humana. Muitas vezes fazemos actos de pecado por influência do demónio e são actos de momento, quase sem pensar: é aquele momento que dizemos uma pequena mentira porque temos medo, em que negamos a aceitar a verdade sobre nós mesmos, em que damos largas à bisbilhotice e escárnio sobre os outros, em que aproveitamos a distracção do outro para levarmos a nossa avante à sua custa, à custa do seu prejuízo. Mas esses são os pecados em que - dando-nos conta de que errámos, nos arrependemos sinceramente, procuramos reparar o mal feito, assumindo as consequências dos nossos actos mal-pensados e procurando não os repetir - Deus nos dá a benção da misericórdia do Seu perdão.
Devido a tantas coisas que o demónio põe nos nossos caminhos, podemos afastarmo-nos de Deus, mas no entanto, no mais profundo da nossa alma deixamos Ele estar presente. Até isso Deus nos perdoa, quando decidimos voltar, como na parábola do filho pródigo (Lucas 15. 11-32).
Mas já muito diferente, é trairmos a Deus, conscientemente abandonarmos os Seus caminhos, deixar de O amar, escolher outros 'deuses' a quem voltamos a nossa atenção. É pormos Deus de lado, como se ele não existisse mais. É negá-l'O. Não só nas palavras, mas no nossos actos e, sobretudo e ligado às palavras e aos actos, no nosso espírito.
É quando nos rendemos ao mundo: é a 'loucura' pelo futebol ou qualquer outra actividade mundana, o centrarmos no dinheiro e no seu ganho todos os objectivos da nossa vida, deixando de tomar qualquer limite ético para o obtermos. Ou tornarmos o sexo a única razão da nossa vida e das nossas relações, sem nos importarmos com os sentimentos. E blasfemar e maldizermos a Ele. Aí, se lhe voltamos as costas e O desprezamos, porque havemos de esperar continuar a receber as Suas bençãos?

terça-feira, 24 de junho de 2008

O erro da riqueza material


Hieronymus Bosch (c. 1450-1516). A Morte e o Avarento (c. 1490).
Óleo na madeira (93 x 31 cm) - National Gallery of Art, Washington

A vida não é fácil. Todos os dias somos confrontados com desafios de uma e outra ordem. Numa sociedade onde, praticamente, tudo é mediado pelo dinheiro, e onde as necessidades são sempre maiores que os recursos, a questão financeira, é uma fonte de preocupações e absorve grande parte dos nossos esforços e dos nossos pensamentos. Muitas vezes, apenas por uma questão de sobrevivência.
Quando na Igreja ouvimos falar na abundância de Deus para com os Seus filhos, muitas vezes somos tentados a confundir as coisas. Na realidade, Deus não tem nenhum saco de dinheiro que derrame sobre quem acredite n'Ele e viva com fé e piedade.
A abundância de Deus é uma abundância espiritual. Os Seus dons, são dons do espírito. Os dons da misericórdia, da tranquilidade, da Paz e da Força interiores, por exemplo. Jesus Cristo falou-nos num viver sem cuidado com os bens materiais, porque tudo nos chegará jà justa medida do que necessitamos. Mesmo, Ele disse para darmos a César o que era de César e darmos a Deus o que é de Deus. Como vai, então, Deus, dar-nos o que é de César? Jesus, ainda, quando interrogado por Pilatos e por Herodes, apenas disse que o Seu Reino não era deste mundo.
O que Deus, por meio de Jesus, nos fala é da riqueza espiritual. E sendo-se espiritualmente rico, tem-se o resto por 'acréscimo'. Porque seremos mais sensatos, mais generosos. E com uma alma generosa, a mais pequena migalha é uma fortuna, enquanto que com uma alma avarenta, nem a maior fortuna do mundo é suficiente. Porque teremos uma outra visão para com o que nos rodeia: a visão da gratidão, que valoriza as pequenas coisas e nos torna felizes por as podermos usufruir.
Ser pobre, como Jesus Falou, é dever largar todos os bens que temos? Não. Mas é saber partilhá-lhos de alma alegre quando a tal formos solicitados, na certeza que Deus também não nos desampara. Se temos, por qualquer razão muitos bens, mais do que o comum das pessoas e mais do que necessitamos, os devemos conservar, num espírito de justiça: se por um lado cuidando deles, pelo outro sermos desprendidos em relação a eles. Se por um lado fazermos com que eles cresçam, pelo outro, partilhá-los na misericórida e como instrumentos do Bem. Mas sobretudo, este sermos pobres é fecharmos a porta ao orgulho, à arrogância, apenas porque temos mais bens materiais que os outros. Do mesmo modo, que fecharmos a porta à inveja e à ganância, se temos menos bens que os outros. Em ambos os casos, entregarmos nas mãos de Deus as nossas vidas, para que Ele nos ajude a termos um equilíbrio que nos faça verdadeiramente sentir felizes.
'Dou continuamente graças a Deus a vosso respeito, por causa dos dons que ele vos concedeu, por meio de Jesus Cristo. Pela união com Ele, tornaram-se ricos em tudo: na aceitação total da Palavra de Deus e no conhecimento perfeito da mesma. Uma vez que a mensagem de Cristo está arreigada em vocês, já nenhum dom vos faltará, enquanto esperarem a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo'. (I Coríntios, 1, 4-7) .

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Clamando da dor

(William Blake- Londres 1757-1827. O demónio espalha a lepra sobre Job)

Job tinha tudo quanto era de bom e o demónio, para o tentar, ver se ele maldizia a Deus, por ser justo e temente ao Senhor, tudo lhe retirou: as riquezas, a família, a saúde.
O terceiro capítulo do Livro de Job conta as suas lamentações. São 26 versículos que mostram todo o sofrimento de um homem. Ele tem dores, dores de sentimento pela morte dos filhos, da sua família, dores físicas da lepra que o atinge. Vê a degradação: vive agora na maior das misérias e vê o seu corpo apodrecer. Ele é um homem profundamente deprimido. E deixa-se levar por essa depressão num queixume. Maldiz a hora em que nasceu, considerando que era preferível nem ter sido concebido ou ter morrido logo à nascença. No seu desespêro, chega a amaldiçoar o últero que o gerou e o peito que o amamentou.
Grita que se estivesse morto, estaria melhor, porque estaria descansando.
Quantas vezes, este discurso não toma posse de nós, quando nos enfrentamos com as dificuldades que no momento nos parecem impossíveis de ser resolvidas?
Quantas vezes não somos tomados por este sentimento de desalento, este desejo de tudo abandonar e deixar que a morte nos tome?
Job não invectiva Deus, não se rebela contra Ele. Apenas questiona-se sem entender. E nós? Para os ateus, nem é preciso rebelião contra Deus, porque não acreditam n'Ele. A rebelião já é permanente. Mas nós que nos intitulamos cristãos, quantas vezes não nos revoltamos e culpamos Deus pelo que nos sucede? Mas, a verdade é que, na maioria das vezes, o que nos acontece de mal é apenas fruto do homem e da sua maldade, instigado pelo demónio.
Apenas na doença e, mesmo assim, nem em todos os casos, é que o sofrimento não é causado directamente pelo ser humano. Mas mesmo na doença, muitas vezes, ela resulta da forma como ao longo da vida maltratamos ou nos maltratam o nosso corpo, esquecidos que ele também é um dom de Deus: são os excessos de comida e de bebida, as dietas erradas, os excessos de trabalho, de stress, o fumo, a promiscuidade, enfim, um sem-número de atitudes erradas e pelas quais mais cedo ou mais tarde o corpo pagará. E como o corpo, também, muitas vezes o espírito e a mente.
No que nos ultrapassa, é onde devemos ter a humildade de aceitar e de transformar esse sofrimento em algo de positivo, na sua oferta pela expiação dos pecados, nossos ou, num gesto de amor maior, dos outros. Tal como Cristo, que aceitou morrer na cruz pela nossa salvação.
Voltemos a Jod: ele é o exemplo do homem sofredor, mas que, embora lamente a sua sorte, não levanta a voz contra Deus, nem o culpa de nada.
Ele é o exemplo de como quem tem um coração em justiça, pureza e preserverança em Deus, leva a melhor às tentações e traições do demónio.
Um exemplo com milhares de anos, mas vivamente actual nos dias de hoje.

Que Job seja um exemplo do nosso amor incondicional a Deus, por muito más que sejam as nossas condições. De paciência para com as adversidades e confiança em Deus e no Seu poder, que concorre para o nosso bem.

Amor de Deus nos vossos corações

terça-feira, 17 de junho de 2008

Tempo para trabalhar, tempo para orar - II


(Johannes Vermeer - Cristo em casa de Marta e Maria. 1654/55)

Enquanto Cristo e os discípulos, estão em casa de Marta e Maria, irmãs de Lázaro, Marta está ocupada com os afazeres da casa; escolhera assumir a tarefa de bem receber fisicamente a Jesus e os discípulos. Mas, no seu íntimo, embora animada no início de boa-vontade, ela vai deixando a revolta tomar conta dela. É uma tentação que está sofrendo. E que deixa crescer. Na realidade, ela está a perder a alegria do que está fazendo. Olha para a sua irmã e sente-se injustiçada. Reclama e Jesus, de certo modo, repreende-a. Porque Marta, ao concentrar-se, preocupar-se demasiado com as coisas acessórias, está perdendo a melhor parte: tanto perde a oportunidade de ouvir a prestar atenção na Palavra da Vida, como perde a alegria de fazer as tarefas com gratidão e generosidade.
Encararmos o nosso trabalho com generosidade e com alegria é também uma forma de orarmos, de mostrar que estamos gratos a Deus por ter esse trabalho, por muito humilde que seja. Estarmos gratos por Ele nos permitir ter um sustento e, também por, através dele, podermos ter a oportunidade de sermos exemplos vivos da Mensagem de Cristo.
Aceitar o trabalho é aceitar a Deus e o que Ele nos dá. Porque se esse trabalho está nas nossas mãos, é porque é essa a Sua Vontade e é ali que devemos dar o testemunho. Mas também precisamos de entender a revelação de que em que sentido Deus quer que dêemos esse testemunho.
No entanto, aceitarmos com humildade e alegria o trabalho que temos, não significa estagnarmos e não tentarmos progredir. Não. Significa, isso sim, é entregarmo-nos devotadamente à nossa tarefa, mas sem descartar a procura de melhores condições de vida e de sustento. Mas que essa procura seja na benção de Deus, sem prejudicar ninguém. Sem atropelos, sem prejudicar os outros, criando-lhes ciladas, usando ardilosidades, por isso é alegrar o inimigo de Deus.

Paz e tranquilidade de Deus em vossos corações

Tempo para trabalhar, tempo para orar - I


(Gerrit van Honthorst - Infância de Cristo - 1620)

Há uma passagem do Evangelho de Lucas que nos traz perante um problema, muito actual hoje: "Não tenho tempo. Tenho tanto que fazer, que não tenho tempo para ir à Igreja, para orar, para ler a Bíblia"... Enfim, um sem-número de coisas que são deixadas pra trás. Essa passagem é sobre a visita de Jesus a casa de Marta e Maria, irmãs de Lázaro.
Marta está atarefada com as lides da casa para receber Jesus e os discípulos. Ela cozinha, ela buscar a melhor toalha, ela vai buscar os pratos. Vai na cozinha ver a comida que está ao lume. Verifica se os temperos estão no ponto. Anda num rodopio.
Enquanto isso, sua irmã, Maria, fica apenas junto de Cristo, ouvindo-o. Como se nada mais aeixtisse no mundo. Marta fica revoltada: sobre ela está recaindo o trabalho todo e a irmã não a ajuda. Protesta, diz a Jesus que repreenda Maria e a mande ir ajudar nas lides. Mas Jesus responde que, das duas irmãs, Maria é a que fica com a melhor parte (Lucas 10 38.42)
Está Jesus promovendo o desleixo, o egoísmo do deixa andar para os outros as tarefas desagradáveis, que eu estou aqui muito bem nas minhas orações? Não. O que Jesus quis dizer é que há um tempo para tudo e, também, que o trabalho deve ser aceite com gratidão e não com a revolta.
Ser cristão toma demasiado tempo? Não, de maneira nenhuma. Certamente que há que se investir no conhecimento da Palavra de Deus. É como o semear, para depois colher, sendo que a colheita é maior que a sementeira.
Na realidade o Cristianismo é básico e tenho ultimamente falado muito desse ponto: Amar a Deus acima de tudo e Amar o próximo como a nós mesmos. Depois, é tudo uma questão de atitutde e, essa, não ocupa tempo. O primeiro passo está dado: eu quero aceitar Cristo na minha vida. Então, tenho de agir em conformidade. É uma mudança de atitude, o abraçar do 'homem' novo de que fala o apóstolo Paulo. Esta vontade de ser amigo de Deus, pela aceitação de Cristo como modelo de vida, é abrir a mente à confiança em Deus, no Seu Poder, na Sua Misericórdia e que tudo isso concorre para o nosso bem, porque já demos aquele primeiro passo de aceitação e abrimos nosso coração para recebermos o Espírito Santo.
Deus fala-nos constantemente pelo Espírito. Não é no sentido de ouvirmos vozes, mas no sentido de termos 'revelações' pelos actos, palavras, acontecimentos, que de certo modo respondem às nossas necessidades espirituais e não só. Mas o local por excelência para encontrarmos a Palavra de Deus dirigida às nossas pessoas é na Sagrada Escritura, o Velho e Novo Testamento, nas cartas inspiradas de Paulo às diversas igrejas, nos Actos dos Apóstolos, na visão do Apocalipse de João.
Pessoalmente, tomei o hábito de orar brevemente a Deus para que Ele, através do Espírito Santo, guie a minha mão e abro a Bíblia 'ao calhas'. E ler com atenção o que me é dado a ler. Num dado momento, está ali, perante os meus olhos e o meu entendimento a frase, a ideia que me dá a resposta pela qual a minha alma anseia. É isto a revelação de Deus através do Espírito Santo. Mas outras formas há, segundo o entendimento de cada um, porque Deus é imenso.
Na realidade, neste pequeno/grande passo diário, que não demora mais de cinco minutos, que recebo a semente espiritual. Depois, é esta frase que me guia, nos meus pensamentos, quando a minha mente está 'ociosa' do trabalho. Concentro-me no meu trabalho, com certeza, e ele é-me muito absorvente. Mas há sempre aqueles momentos de ir tomar um café, de ir beber uma água, de ir a outro departamento, normalmente noutro andar. E são nesses momentos ao longo da jornada de trabalho que, em vez de pensar em coisas fúteis e na vida dos outros, penso naquilo que li na manhã, 'converso' um pouco com Deus, isto é, oro a Ele.
Lembremo-nos ainda que Cristo, até aos 30 anos, trabalhou na carpintaria de José, seu pai adoptivo. E não foi por isso, pela execução do trabalho, que se afastou de Deus-Pai. Também aqui Ele nos é exemplo de vida.

Tempo de Deus em vossos corações

domingo, 15 de junho de 2008

A Sabedoria não se manifesta a grande número

(O Semeador - Theo van Gogh, Arles, 1888)


'Vai ao encontro da sabedoria como aquele que lavra e semeia,
e espera pacientemente os seus bons frutos.
Custar-te-á um pouco de trabalho a sua cultura,
mas em breve, comerás dos seus frutos'
(Ecli.6 19-20)

A sabedoria que emana de Deus está ligada à paciência e ao trabalho em a obter. Ir ao encontro desta sabedoria é, por um lado, o trabalho de ler a Palavra, de meditar sobre ela, porque é semente que dá fruto em campo que esteja regado e adubado (Mateus 13. 3-9). O pensar sobre a Palavra e aceitá-la é o adubo e a rega da terra que faz a semente frutificar e crescer cada dia mais forte. Ir ao encontro desta sabedoria é, pelo outro lado, cultivar a paciência e paciência significa confiança, fé. Confiança de que se cumprirá o que Deus prometeu através de Seu filho. Mas também paciência para escutar a Sua voz em nossos corações. Calar as vozes mundanas e criar o silêncio espiritual, no qual se ouvirá a voz de Deus e se entenderão os sinais que Ele nos envia, para o nosso bem, para sabermos e termos forças de seguirmos o caminho que conduz ao Bem.
Cultivar, no sentido literal da palavra, é um trabalho lindo mas árduo: a terra tem de ser preparada até ficar fôfa e em condições de receber a semente. A semente é posta e coberta de terra, mas na sua justa medida: nem demais que fique atrofiada, nem demenos que o vento ou os pássaros a levem. E depois tem de ser regada, na quantidade justa também, para não apodrecer por excesso de água ou secar por falta dela.
Assim também devemos cuidar da nossa vida Cristã. Preparar a terra é predispormos a aceitar a Palavra, a aceitar o compromisso da vida em Cristo. E aceitar compromissos não é fácil. Temos de lutar tantas vezes contra o nosso comodismo e a nossa razão mundana, na verdade assente nesse comodismo. A Palavra está ao nosso alcance, todavia, e essa é a parte mais fácil: basta a ler ou a escutar. Cobrir a semente de um pouco de terra, é o pensarmos sobre essa Palavra, o que a mensagem de Cristo significa para cada um de nós, junto de nossos corações e a forma como a aceitamos e a praticamos com verdade e sinceridade. Regar a jovem plantação é a oração, a sós ou em comunidade, o adubar as jovens plantas é o estudo da Palavra de Deus, de forma que a compreendendo melhor, mais se desenvolva em nossos corações. E os frutos são as graças que Deus nos dá, porque cuidamos da Sua semente.
Nesta passagem do Eclesiástico, é afirmado que, no entanto, o ignorante foge da sabedoria porque ela é um pesado fardo para ele. É o caso daqueles que podem aceder à graça de Deus e somos todos - mas a quem falta a vontade de a aceitar. A insensatez mundana é-lhe muito mais agradável. Tem os seus frutos no imediato: mas ou são frutos verdes e ácidos ou frutos podres que fazem adoecer. Ou, ainda, frutos estéreis, até de bonitas cores, mas sem sabor e sem futuro, que apenas conduzem ao vazio. Ao vazio do coração, ao vazio do espírito. E nada é mais terrível, mais insuportável que este vazio sem sentido e sem ser enchido pelo Espírito Santo.
Saibamos e procuremos, pois, acolher a Sabedoria, 'porque a sabedoria que instruí é fiel ao seu nome, não se manifesta a um grande número, mas, naqueles que a conhecem, permanece até à presença de Deus' (Ecli 6. 23).

Paz em vossos corações abertos à Sabedoria de Deus

sábado, 14 de junho de 2008

Na escolha do caminho



(Banquete e orgia romanos, na visão de C. De Mille, no filme O Senhor da Cruz (1932)

'O Senhor olha atentamente para os caminhos do homem
e observa todos os seus passos.
O ímpio é presa das suas próprias iniquidades,
é ligado com as cadeias dos seus pecados.
Perecerá porque não recebeu a correcção
e perder-se-á pelo excesso da sua loucura'
(Prov. 5. 21-23)

Uma ameaça? Deus faz uma ameaça? Não, Deus apenas nos avisa que os nossos actos terão a sua consequência. Se agirmos correctamente dentro da ética, os nossos actos, qual uma árvore, darão bons resultados. Porém, se agirmos no mal, também a maldade dos nossos actos recairá sobre nós mesmos. No entanto, somos livres de escolher.
O Cristianismo é um estilo de vida. Desafiador. Comprometedor. Obedece a regras, na realidade apenas duas e tão intensas que cobrem tudo: Amar a Deus e Amar os outros, à luz da vontade divina transmitida por Jesus Cristo.
Como cristãos emprenhados devemos evitar a iniquidade. Não podemos evitar as tentações. Elas são os desafios que põem à prova a nossa coerência. Não é a tentação que é pecado. É o ceder a ela. Mas é possível uma pessoa opor-se à tentação? Claro que sim. Não é fácil de modo algum. Por isso que devemos orar a Deus e contar com a Sua ajuda, para que o Espírito ocupe os vazios da nossa alma que estão sujeitos à tentação. De certo modo, é essa a correcção de que fala o provérbio: a força de entender o que está mal, e a força maior do arrependimento, de fechar as portas à tentativa do demónio em corrompermo-nos e, deste modo, destuir a Obra de Deus.
Termos a consciência viva e lúcida e termos a coragem de entendermos, quando estamos a trilhar o caminho errado, que temos de mudar o nosso itinerário. Mudando, não só de atitude, mas também pela humildade de reconhecer que nada somos, que precisamos de Deus e da Sua Palavra como o pão de cada dia. Mudando pela humildade de pedirmos o perdão. E nessa humildade, seremos exaltados perante Deus. Porque se o nosso arrependimento for sincero, ainda que tenhamos de sofrer consequências pelos nossos actos, Deus nos dará o benefício da Sua Misericórdia e com esse benefício as forças suficientes para passarmos à frente, sendo apagadas as nossas faltas, aos Seus olhos. É o milagre da Redenção, do qual não devemos temer. É a oportunidade, em cada dia renovada, de renascermos como um Homem Novo, de que fala o apostolo Paulo. Por isso que Cristo veio entre nós e nos ensinou apenas uma oração: de glória a Deus-Pai, de cumprimento da Sua vontade, de confiança total no Seu auxílio, de perdão de nós para com os que nos ofenderam e de pedido que nos evitar da Tentação e do Mal.

A Paz de Deus em vossos corações

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Mente positiva


Empenhados no sentir de Cristo nas nossas vidas, é bom louvar a Deus. É um acto de amor. Qual é o apaixonado que não destaca as qualidades da sua amada? Amar a Deus acima de todas as coisas é o primeiro mandamento, a que se segue o de Amar o próximo como a nós mesmos.
Então, há o Amar a Deus, o amar a nós mesmos - isso é muito importante - e o amar o próximo.
Amar a nós mesmos, não é o orgulho na nossa pessoa, o narcisismo. Isso é a armadilha do demónio para nos desviar do verdadeiro amor por nós próprios. O Amor a nós próprios deve partir de que fomos criados à Imagem de Deus. Somos também uma obra Sua, como o resto da Natureza e nesse modo, devemos cuidar e perservar o que Deus tão gratuitamente no dá. Cuidar fisicamente, de forma a mantermos tanto quanto possível uma boa saúde e cuidar espiritualmente, de forma a procurarmos estar na Graça de Deus. Mente sã em corpo são. O aforismo dos romanos pagãos, mantém-se válido para o cristão, porque em nada interfere com a sua fé. E o amor cristão a nós próprios é ter uma mente positiva. Porque temos a arma da Fé em Deus, porque é nossa convicção de que Ele cuida de nós, como o Bom Pastor. E é esta mente positiva que devemos ter para com o próximo, para o amarmos, do mesmo jeito que Cristo nos amou.
Ter uma mente positiva é afastarmos de nós o desalento pela descrença, a inveja em relação ao nosso próximo, a malidicência em relação a quem nos rodeia. Ter uma mente positiva é também o primeiro passo para o Espírito Santo entrar em comunhão com o nosso espírito e nos encher das graças por tudo o que Deus nos dá, por pequeno que seja. Ter uma mente positiva é, finalmente, abrirmos a porta para darmos e recebermos a Misericóridia.
E o Amar a Deus e ao nosso irmão, finalmente, combina-se numa acção: darmos louvores a Deus pela fé dos nossos irmãos, ( II Tessa. 1. 3) que igualmente alimenta a nossa fé, dando corpo e sentido à Igreja enquanto Assembleia do Senhor.
Paz de Deus em vossos corações.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Enfrentar as dificuldades


Ser-se cristão, não é ter a vida transformada num 'mar de rosas', como um passe de magia. Bem pelo contrário: é trilhar o caminho estreito e pedregoso. O cristão tem todas as dificuldades que o resto do mundo tem: dificuldades de saúde, laborais, financeiras, familiares, existenciais. Enfim, tudo o que acontece a qualquer ser humano.
Mas o cristão tem mais: tem uma poderosa arma que o faz ter uma atitude diferente perante a adversidade. E essa arma é a Fé. É a esperança. É a confiança de que Deus ajuda quem O ama. Não se vai amar a Deus para Ele nos ajudar. Não. Isso é ser-se interesseiro e consequentemente, hipócrita. Ama-se a Deus de qualquer jeito, porque se Lhe tem amor: em qualquer momento, seja de glória, seja de provação. E Ele nos responderá, segundo a sua Justiça e a veracidade da nossa fé.
Ser-se amigo de Deus não é estar como que numa redoma de vidro, protegido do sofrimento. É enfrentar o sofrimento com uma outra atitude. Enfrentar o sofrimento com paciência, na certeza da esperança e na certeza de que tudo o que Deus faz e permite, não está acima das nossas forças e concorre para o nosso bem. O sofrimento existe. É um facto. Mas se o olharmos como Job, uma prova à nossa fé em Deus, não como um fardo mas o aceitarmos como uma oração que oferecemos a Deus - daí a paciência - para bem de nós mesmos e das pessoas por quem oramos, então esse sofrimento já é 'positivo', porque positiva é a atitude com que o tomemos.

'Não é o sofrimento que glorifica a Deus, mas uma atitude santa diante do sofrer que agrada ao Senhor e lhe traz glória (Joyce Meyer - O Campo da Batalha da Mente, p. 253), referindo-se à passagem em 1 Pedro 2. 19-20).

Todavia e ainda assim, no sofrimento, Deus nos manda o Consolador: o Espírito Santo que nos ajuda quando estamos mais fracos (João 14. 16-17). Que nos ajuda com a voz interior, como também nos ajuda guiando a nossa mão para a passagem bíblica que tem a resposta certa ao nosso momento; que nos ajuda com o irmão que nos dá a palavra certa ou que, pelo menos, ouve pacientemente o nosso desabafo; que nos ajuda com o acontecimento inesperado que responde à nossa prece. Mas sobretudo, e mais importante que todo o resto, o Espírito leva a nossa súplica junto de Deus. E Deus, pelo Espírito, vê dentro de nossos corações. E Deus dispõe tudo para o bem daqueles que O amam e que Ele chamou, segundo o Seu plano (Rom, 8. 18-28), mesmo que na altura não entendemos esse plano.

Mas, mesmo não entendendo o Seu plano, é nosso dever como crentes em Deus, de manter a Fé n'Ele. E de ter a paciência de aceitar a Sua vontade. 'Pai, faça-se não a minha, mas a Tua vontade' (Mt 26, 36-46). O próprio Jesus, no Jardim das Oliveiras, antes de ser entregue para ser crucificado, põe todo o seu futuro, não nas próprias mãos, mas nas mãos do Pai. Humildade e paciência na aceitação do sofrimento. Num sofrimento que Ele não merece, mas que aceita por todos nós, para nos salvar, segundo o plano de Deus-Pai.

Somos, pois, tocados pelo sofrimento como o resto da humanidade. Porém, como os primeiros mártires do Cristianismo, que louvavam e cantavam ao Senhor Deus, na arena do circo, rodeados das feras e dos atacantes, sabendo que o suplício e a morte eram certos, assim nós que também nos dizemos cristãos, devemos enfrentar esse sofrimento, cada vez mais firmes na Fé. E Deus, assim agradado, assim se lembrará de nós...


Paz e paciência misericordiosa em vossos corações.

domingo, 8 de junho de 2008

Compromisso e suporte


'Irmãos, tenham cuidado para que não haja ninguém, entre vocês com um coração tão malvado e descrente que se afaste de Deus Vivo. Pelo contrário, animem-se uns aos outros continuamente, enquanto dura o dia de 'hoje', de que fala a Sagrada escritura. Procedam assim para evitar que alguns de vocês se deixe levar pela sedução do pecado. Na realidade, nós estamos ligados a Cristo e havemos de continuar, se mantivermos firmes até ao fim a confiança que tínhamos no princípio' (Hebreus 3 12-14)

Amar a Deus, segundo os princípios que Jesus Cristo, Seu Filho, nos legou é um compromisso que tomamos nas nossas vidas, enquanto cristãos convictos.
Hoje é muito comum as pessoas dizerem 'sou católico não-praticante'. Mas não é só nos católicos que encontro esta expressão: também entre os islâmicos, entre os judeus, mesmo entre os que de dizem pertencer às igrejas reformadas e oficiais. Mas isso, em termos de Fé, não é nada. 'A circuncisão - sinal de pertencer à religião judaica, correspondente ao baptismo cristão - é, na verdade proveitosa, se tu guardares a lei: se, porém, transgrides a lei, a tua circuncisão torna-se em incircuncisão' (Rom. 3. 25)
Podemos historicamente encontrar uma explicação para essa atitude, tal o comprometimento das religiões oficiais com o Estado e o Poder.
Mas isso não interessa a Deus pra nada e revela uma hipocrisia que Ele abomina. Sejamos misericordiosos: ser-se de qualquer religião, mas não praticante revela, pelo menos, uma total ignorância, porque queremos acreditar que quem tal afirma até nem conscientemente por mal que toma esta atitude. Não faço julgamentos. Isso é um assunto do Senhor e é a Ele que compete decidir segundo a Sua justiça.
De qualquer modo, nesta carta aos Hebreus, Paulo chama a atenção para a necessidade do compromisso pessoal de cada um de nós para com o amor a Deus. Mas um compromisso a sério e empenhado. E os compromissos nunca são fáceis, sobretudo quando o demónio procura por todos os meios destruir a Obra de Deus junto dos homens. Muitas vezes, somos tomados de um excesso de auto-confiança e acreditamos que sozinhos conseguimos dominar a situação e, neste caso, não nos afastarmos de Deus.
Puro engano!
Uma caminhada solitária custa sempre mais do que uma caminhada em conjunto, em que todos os elementos do grupo se inter-ajudam, se incentivam mutuamente.
Por igual nos caminhos da Fé. Cristãos, membros de uma comunidade, precisamos uns dos outros para nos encorajarmos uns aos outros, sobretudo quando a nossa fé vacila, devido às tentações que o demónio nos põe pela frente.
Estas tentações, por vezes, são coisas bem subtis, que quase nem demos por elas e quando abrimos os olhos, já estamos envolvidos no pecado, no comportamento impróprio de quem quer ser Amigo de Deus.
Enquanto cristãos, não devemos cerrar os ouvidos às palavras dos irmãos na Fé, nem a boca, quando os irmãos na Fé precisam de nos ouvir e para tal somos inspirados pelo Espírito Santo.
E quando temos que repreender, fazer uma chamada de atenção, que o façamos sem ofender, mas com Amor. E se não soubermos como falar, pelo menos oremos ao Senhor pra que encha com o seu Espírito os vazios espirituais do irmão que enfrenta a tempestade da vacilação.
Todos nós precisamos uns dos outros, segundo os dons que cada um está habilitado a partilhar. Todos nós, no compromisso cristão, temos o dever de partilhar os nossos dons. Porque todos somos parte de Cristo e Cristo está em cada um de nós. Estamos ligados a Cristo, como diz Paulo. E essa ligação não se rompe enquanto nos mantivermos firmes na fé.
Cristo disse que quando estivesssemos reunidos em Seu nome, Ele estaria no meio de nós. Assim, quando nos juntamos com os nossos irmãos para animarmo-nos mutuamente na fé e para vencer as tentações, é Jesus que está ali, no meio de nós. É o seu Espirito que nos unde, nos ilumina, nos consola. É nesta união da fé que se revela do Consolador, que jesus nos legou após a sua Ressurreição.
Aminemo-nos, pois, mutuamente. Se Jesus é o Bom Pastor, que cada um de nós seja, ao mesmo tempo, a sua ovelha que lhe escuta e vai ao encontro da Sua Voz e o cão de guarda que ajuda o pastor a defender o rebanho do ataque dos lobos que o rondam.
Paz e Misericórida de Deus em vossos corações.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Louvar o Senhor com as migalhas do dia -II


(“O Milagre dos Pães e dos Peixes”, (520 d.C.) Mosaico; basílica de Santo Apolinário, o Novo, Ravena)


Louvar ao Senhor com gratidão, é bom: enche a nossa alma e trnasforma-nos, tornando-nos mais atentos para o que de bonito, por mais simples que seja, está à nossa volta.
É como um exercício constante e o atleta que tem mais chances de vencer as provas é aquele que se treina diariamente e não propriamente, o indivíduo que fica todo o dia sentado no sofá a olhar a televisão.
Mas louvar ao Senhor, por si só, não chega. É bom, mas fica aquém do que completa a dimensão do verdadeiro crente. Por isso que o salmista do Salmo 100 afirma: 'Seguirei por caminhos rectos'.
Seguir por caminhos rectos é uma escolha e para quem escolheu Cristo como modelo de vida é seguir, simplesmente, os caminhos orientadores definidos por ele: '"Escuta Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças". E o segundo em importância é este: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Não há nenhum mandamento mais importante que este' (Mateus 12 29-31).
Amar a Deus e ao próximo implica seguir os caminhos da rectidão. Para com Deus e para com os homens. A Ele, evitar faltar-Lhe ao respeito, evitar desafiá-Lo, evitar não confiar n'Ele. Para com os homens, evitar fazer coisas deliberadamente para prejudicar o nosso irmão e evitar de não o socorrer quando ele, pelo menos, nos bate à porta a pedir auxílio.
As orações de louvor e os actos. E com os actos sermos exemplos vivos de irmãos de Cristo para todos os homens.
Nem sempre é fácil. Precisamos da preserverança e da paciência. Precisamos de encarar a adversidade com a atitude da aceitação: aceitação na paciência e aceitação na confiança completa em Deus e no seu auxílio. Não é o sofrimento em si que nos traz a glória dos mártires, mas esta aceitação na paciência. É com a paciência e a aceitação que venceremos. Bem aventurados os pacíficos, porque possuirão a terra.

Que esta paciência e aceitação da adversidade, estejam presentes quando orarmos ao Senhor a pedir forças para enfrentarmos os desafios que se nos põem à frente.

Paz e Amor de Deus em vossos corações.

Louvar o Senhor com as migalhas do dia - I


Cantarei a graça e a justiça,
a Vós, Senhor, entoarei salmos
Seguirei por caminhos rectos,
Oh Quando vireis a mim?
(Salm. 100. 1-2)

Louvemos ao Senhor, diz o salmista. Caramba! É preciso tanto louvor ao Senhor? É preciso bajulá-lo tanto?
Quantas vezes nos nossos momentos de desânimo, de tentação, não fazemos este tipo de perguntas?
Se Deus fosse um humano igual a nós, que com frequência nos deixamos ofuscar pelo nosso orgulho, possivelmente Ele apreciaria a nossa bajulação, mesmo que ela fosse apenas da boca para fora. "Não importa que falem bem ou mal de mim; o que importem é que falem"!
Mas não. Felizmente, Deus não é humano nem está corrompido pela vaidade humana e está muito além dessa necessidade de ter o seu ego alimentado.
Deus nem quer, conforme disse Jesus, que nós repetidamente batemos com a mão no peito e chamemos 'Senhor! Senhor!', se essa saudação não for sincera.

Neste Salmo 100, do Rei David, está claro o que Deus quer de cada um de nós: cantar os dons e a justiça de Deus. Louvá-lo não tanto com as palavras, mas com o coração, apreciando constantemente as coisas boas com que diariamente nos rodeia. Olharmos com gratidão e pensarmos como foi bom o Senhor ter.nos permitido aquele raio de sol, aquele bocado de paisagem iluminada, que nos encheu de cor e beleza, aquele aroma bom de um pão quente, ou até de um perfume e que nos fez sentir tão bem. Ou um olhar gaiato de uma criança que nos fez esboçar um sorriso. Ou um 'bom-dia' ouvido com simpatia. Apreciar e valorizar cada pequeno momento desses que Deus nos deu e sentirmo-nos reconhecidos por essas pequenas coisas. Isso é louvar o Senhor, não com a boca, mas com o sentimento e o coração.
Mas por tão pouco? Louvar assim por tão pouco?
Pois é... Louvar assim por tão pouco.

Ando de moto, vai para quase quarenta anos. Já sofri os meus acidentes em centenas de milhares de quilómetros que já fiz em cima das 'duas rodas'. Ainda hoje o faço e tiro um prazer enorme de andar numa moto com o motor todo afinadinho. Uma vez, logo nos inícios, um dos meus irmãos, que também era moticiclista disse-me: 'É conduzindo devagar que nos habituamos, conhecemos a moto e treinamos as manobras, para no dia em que formos em velocidade, já fazermos automaticamente as operações e não nos atrapalharmos'.

Pois é. É tal e qual: louvar a Deus com gratidão por estas 'migalhas', estes pequenos sinais, para O entendermos e para nos habituarmos a ter um sentimento de gratidão e O melhor entendermos e com maior gratidão e apreço quando recebemos graças maiores.
Estas pequenas graças que nos rodeiam são como uma planta que vai crescendo, pouco a pouco, até se tornar numa frondosa árvore. São como o grão de mostrada da parábola de Jesus, que minúscula semente cresce até ser uma frondosa árvore, onde os pássaros buscam abrigo para o seus ninhos. É como uma espiral, em todo este processo: os louvores pelas coisas pequenas tornam-se o adubo para crescer a árvore da gratidão: quanto maior é a nossa gratidão para com Deus e maior é o desejo de estarmos com o nosso coração perto dele, maiores são as graças que d'Ele recebemos.

Que a Graça de Deus toque vossos corações.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Liberdade e responsabilidade


No meu trabalho tenho uma colega que é detestada por praticamente toda a gente, pela sua arrogância, má-educação, abuso de autoridade pelo lugar de chefia que ocupa. Recentemente ela viu-se envolvida num escândalo público que envolveu agressões verbais e físicas com outra pessoa e esse escândalo veio relatado ao pormenor num jornal da concorrência ao jornal onde ela e eu trabalhamos.
Nesse dia, o tema foi alvo de conversa em todo o edifício e essa mulher alvo de troça. Tenho de confessar que também procedi de igual modo. Até que, quando me sentei ao meu computador vi uma frase que eu escrevi, a lápis num espaço livre do teclado, quando para lá fui: 'Tudo me é permitido, nem tudo me é conveniente'. Uma frase do apostolo Paulo (I Cor. 10. 23).
Pois. Tudo me é permitido, até ter troçado da minha colega, fazendo coro com o resto do pessoal.
Mas ter-me-á sido conveniente? Aparte de satisfazer o meu ego, trouxe-me algum outro benefício?
Parco e efémero benefício este.
E o que perdi? Muito, porque me afastei do Senhor, me afastei da Misericórdia. Me afastei da prática do Amor para quem está passando pela ignomínia.
Não era preciso ir ter com essa colega e manifestar a minha compreensão. Talvez ela não entendesse esse gesto, nem eu estivesse ainda preparado para o fazer. Mas o ter-me abstido de também comentar, já teria sido suficiente.
'Também a língua é uma pequena parte do corpo, mas é capaz de grandes coisas. (...) Com ela bendizemos a Deus, nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens que foram criados à imagem de Deus. Da mesma boca, saem palavras de benção e de maldição' (Tiago 3. 5 e 9-10).

Perdoa-me, pois, Senhor e irmãos meus, porque pequei, deixei a aridez entrar em meu coração e afastar a água fresca da Misericórdia, que devia dar a quem tem sede.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Diversos mas unidos


Cada irmão na Fé é chamado a desempenhar um papel, um testemunho. Há os que curam, há os que têm do dom da palavra, há os que, simplesmente oram no silêncio. Enfim, a cada um a sua tarefa. São manifestações dos dons espirituais, de que fala o apóstolo Paulo em I Coríntios, 12. Por isso, cada um tem a sua tarefa e nenhuma é mais ou menos importante do que as outras. Porque os dons são diferentes, mas o Espírito é o mesmo. (I Cor. 12. 4). A Deus nada é impossível e Ele realiza maravilhas e usam os que têmo o seu coração próximo d'Ele como o Seu instrumento.

Por isso, cada dom espiritual, mas também cada tarefa humana, que não contrarie o Espirito do Senhor, deve ser aceite e aceite de bom grado, porque Ele está sempre ao nosso lado. 'Quando virdes a multidão comprimir-se em torno deles [os falsos deuses], dizei nos vossos corações "É somente a Vós, Senhor, que devemos adorar". Porque o meu anjo está convosco e ele velará pelas vossas vidas' (Baruc 6. 5-6).

Nesta diversidade de tarefas e de dons, por detrás é o mesmo Senhor, o mesmo Deus que opera, nomeadamente através das promessas feitas por Seu filho, Jesus e da nossa Fé nelas e amor pelos seus ensinamentos.
'É Ele que dá a todos a força para agirem. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum' (I Cor. 12 6-7). Na realidade, se cada um é abençoado com um dom, o deve usar, não para seu próprio benefício, mas para benefício de todos. A partilha, do mesmo modo que Jesus partilhou o pão e o vinho na Última Ceia e disse: 'Façam isto em memória de mim' (Luc. 22. 19).

Lembremos ainda o que o próprio Jesus falou àcerca dos rendimentos dos dons, comparando-os à moeda de ouro que um homem antes de partir, entregou a cada um dos seus dez empregados e mandou fazer negócio com esse dinheiro até ele voltar. Passado um tempo, no regressso, ele pediu contas aos seus empregados e cada um foi dando conforme a sua habilidade e empenho: o mais diligente, de uma, entregou de volta dez moedas de ouro. O seguinte, entregou cinco, mas o terceiro, entregou apenas a mesma moeda que recebera, porque, por medo do rigor do senhor, apenas a guardara e não investira. O senhor o castigou, tirando-lhe a moeda e entregando ao que tinha dez, dizendo que ao que tem dá-lhe mais e ao que não tem, até o pouco se lhe tira. (Luc 19. 11-26).
Assim, temos a responsabilidade de fazer crescer estes dons, de os repartir, sem olhar o que damos, sem esperar nada de volta, dar em espírito de gratidão, porque grande e misericordiosa é a recompensa do Senhor a quem cuida do seu trabalho, tão grande e tão segura que nem precisamos de nos preocuparmos com ela.

'Mas é um só e o mesmo Espírito e que distribuí os dons a cada um, conforme lhe parece' (I Cor. 12. 11). Ou seja, estas 'moedas ' que nos são dadas para investirmos, vêm de uma mesma fonte e apenas o Espírito de Deus é que decide quem recebe moedas de ouro, de prata, ou de cobre, mas todos com a obrigação de as investirmos, com espírito de gratidão e sem inveja pelas moedas que os outos tenham recebido, até que sejamos chamados a prestar contas.

Mas por muitos e bons dons que tenhamos, há um maior que todos, e que a todos nos toca: o Amor. Porque todos os dons não são nada, se não forem partilhados com Amor e Amor é gratidão: 'Ainda que eu dê em esmolas tudo o que é meu; ainda que me deixe queimar vivo, se não tiver amor, isso de nada me serve' (I Cor. 13. 3).

A Paz e a Misericórdia de Deus em vossos corações