quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Não temais

'Não temas', disse o Anjo a Zacarias, para anunciar a concepção de João Baptista. E ele, apesar das condições adversas, aceitou o repto de Deus.
'Não temas', disse o Anjo a Maria, quando lhe anunciou que conceberia Jesus, pelo Espírito Santo. E ela, humildemente, aceitou a tarefa que lhe foi imposta: 'Eis aqui a serva do Senhor'.
'Não temais', disse o Anjo aos pastores e este acorreram a Belém para adorar o filho de Deus, recém-nascido.
'Não temas', disse Jesus a Simão e aos seus companheiros e estes abandonaram a sua barca e as suas redes e O seguiram-no.
'Não temas'. É uma frase-chave, várias vezes citada no Evangelho de S. Lucas (Lcs 1, 13; 1, 30; 2, 10; 5, 10) colorido de tantos factos da vida de Jesus. É a frase-chave com que Deus nos convida para a Sua missão.
E já no Antigo Testamento, muitas vezes chama ao Seu ministério os profetas, com esta mesma frase, como no caso de Josué (Josué 1, 9).
Este é um 'não temas' que implica a confiança e fé totais no Dom de Deus. Pode implicar uma mudança de vida, da vida que até agora conhecemos, trocada por uma nova vida iluminada pela vontade de Deus e onde tudo toma uma perspectiva diferente. E as mudanças quase nunca são fáceis e suscitam muitos temores. Jesus disse: 'Se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a vida vai perdê-la, mas quem perde a vida por amor a mim, esse a salvará' (Lcs 9, 23-24).
O convite de Deus é um convite às mudanças, mas também um convite tremendo, por vezes assustador, e é por isso que Deus também apela à confiança, Ele mesmo ou através dos Seus enviados: 'Não temais'. Este não temer é cada um receber o Reino de Deus com a mesma atitude com que uma criança recebe os dons dos seus pais (Lcs 18, 17), pois 'O Senhor teu Deus está contigo por onde quer que andes'. (Josué 1, 9)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal

Giotto (1266-1337) A natividade (1303-1305) in Capella della’Arena, em Pádua, Itália

Estamos nos últimos dias do Advento e este é um bom momento para recuperar a escrita neste blog: Natal celebra a Vida, através do nascimento de Jesus.
Estamos na 'corrida final' das compras dos presentes, na perspectiva de magníficas refeições repletas de iguarias. Muitos de nós, nesta altura do ano, estamos absolutamente dominados pelos ídolos do dinheiro e do consumismo, onde o Natal perdeu o seu sentido original, para ser dominado pelas manifestações de poder e opulência materialistas, mesmo que não sejam reais, como cenários de papel de um palco de teatro, e marcados através da quantidade de compras que fazemos. Reunimos as famílias em celebrações cada vez mais agnósticas, onde o lúdico ocupou, muitas vezes completamente, o espiritual.
O Natal perdeu, ainda , o seu sentido cristão quando, em nome de um 'politicamente correcto' se apagam as suas referências originais, onde se chega a proibir as referências cristãs nas iluminações públicas da época. E Natal existe, precisa e exclusivamente, porque Jesus nasceu!
Natal é ainda a celebração da Vida, através de Jesus, o filho de Deus, enviado para nos salvar. É a celebração da nova vida de que nos fala S. Paulo (Efs. 2,4-6), onde morre o homem velho, dominado pelo pecado, para, em Cristo, renascer o homem novo, no espírito de Deus.
Recuperemos, pois, o espírito original do Natal, dando azo a mudarmos a nossa vida, reflectindo na oferta que Deus nos faz através do Seu Filho e tão bem expressa no anúncio do Anjo aos pastores: 'Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo:Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo Senhor, na cidade de David (Lucas 2, 10-11).
E com o Anjo e a 'multidão do exército celeste' exultemos nestes dias 'Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens por Ele amados' (Lucas 2, 14)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ao encontro do Deserto

(Ermitério do padre Foucauld na Argélia)

Estamos em vésperas da Páscoa. Para os cristãos este é o momento mais importante da sua vivência religiosa: Cristo passa pelo processo através do qual leva a salvação a todos os que O seguem.
Não me vou alongar em considerações teológicas sobre este assunto. Mas falar da experiência que me está para vir. Dentro de poucas horas parto para o Norte de África, numa missão de solidariedade com os povos do Sahara. Vou para o deserto. Vai ser uma experiência interessante a continuação de algum diálogo ecuménico com estes muçulmanos sunitas: afinal somos todos filhos de um mesmo Deus. Vai ser um encontro com os locais das primeiras expansões do Cristianismo. Basta, por exemplo, lembrar que Santo Agostinho era do Norte de África. Vai ser um encontro com o ambiente de excepção que tanto inspirou Charles de Foucauld e que o levou a uma vivência única da mensagem cristã. Sobretudo desejo que seja, uma vez mais, um encontro com Deus. Um encontro com Deus nesta altura especial da celebração pascal.
A Paz de Cristo convosco todos. Que a memória da Paixão de Jesus, inspire os vossos corações e a vossa Fé.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Entre o grito e o silêncio


Há momentos que Deus nos leva a gritar: a gritar a Sua Mensagem, a gratidão por Ele nos acompanhar, por nos dar a Vida. Mas há outros momentos, em que Deus nos chama a apenas sussurrar ou mesmo ao silêncio, para ouvirmos as nossas vozes interiores, a forma como Ele fala nas nossas almas. São as travessias no deserto, que se nos põem como desafios à nossa Fé, à reflexão sobre o que estamos a desempenhar nas nossas vidas.
Actualmente passamos por momentos de grandes dificuldades, assolados pelo espectro da crise, que de uma forma ou outra, mais ou menos profundamente, nos toca. Um momento de reflexão.
Terminado o Carnaval, no calendário católico, entrou-se no período da Quaresma. Se em tempos passados, a própria Igreja Católica, usou o ideal deste período que antecede a Páscoa, para fins muito pouco evangélicos, não devemos, porém recusar olhar para o significado deste período de jejum e abstinência. Talvez hoje não faça tanto sentido a abstinência de se comer carne às sextas-feiras, quando o peixe já é mais caro que a carne. Talvez hoje não faça tanto sentido o jejum dos alimentos, quando o dia-a-dia já nos leva a desequilíbrios brutais na nossa qualidade de vida. Mas fará todo o sentido a abstinência como disciplina das nossas vidas, com vista ao cumprimento da Vontade de Deus, o jejum dos bens e das atitudes com vista à partilha com aqueles que ainda têm menos que nós: não só a partilha dos bens materiais mas também a partilha das atenções e dos sentimentos.
Fará sentido na Quaresma reflectir na pergunta: "Porque odiei a disciplina e o meu coração desdenhou a correcção? (Prov. 5.12).
A paz de Deus em vossos corações
Fará sentido a abstinência como disciplina das nossas vidas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Apóstolo Paulo - 2000 anos de testemunho

(Ruínas da cidade de Antioquia de Pisidia, antiga província romana da Galátia, hoje Turquia e onde Paulo pregou, juntamente com Barnabé. Foto de Brian Morley)
Celebra-se este ano os 2000 anos do nascimento do Apostolo Paulo. E é uma boa ocasião para olharmos com mais atenção para os seus escritos e reflectirmos na sua mensagem.
De perseguidor de cristãos, este judeu educado na esfera da cultura romana, passou a ser a principal figura do Cristianismo, depois de Jesus Cristo. E a sua dimensão agiganta-se na medida em que transportou o Cristianismo da teoria à prática, do mundo judeu para o mundo dos 'gentios', a tal ponto que se pode dizer que há um cristianismo antes de Paulo e um cristianismo depois de Paulo.
Nos seus escritos revela-se um homem convertido e completamente apaixonado pela figura de Cristo e pela sua Mensagem de Salvação. Fazedor de tendas, depois da conversão, é o maior dos pastores, explicando os ensinamentos de Cristo a cada comunidade a quem escreve e a cada um de nós que, posteriormente, lemos as suas epístolas. Fazedor de tendas que se considera sobretudo cristão e não seguidor desta ou daquela igreja e, ainda menos, vivendo e enriquecendo à custa da Igreja, ao contrário do que acontece com muitos dos homens que se intitulam da Igreja.
Paulo é o apóstolo lúcido e louco. Lúcido quando diz que ‘Tudo me é permitido, mas nem tudo me é conveniente” e louco pela sua entrega a Deus através de Jesus, ao ponto de escrever "Já não sou em quem vivo mas Cristo que veio em mim (Galatas 2.20).

Olhemos pois, com atenção para este homem, aprendemos com ele através dos seus escritos e reflictamos que Cristianismo estamos a levar nas nossas vidas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Lealdade de Deus


Há momentos em que Deus nos chama para gritarmos o Seu testemunho. Mas também há momentos que Deus nos chama para uma pausa. Para pensarmos naquilo que somos, os caminhos que trilhamos, naquilo em que nos estamos a transformar.
Estar na Fé não é estar estático. Há momentos em que nos sentimos mais fortes e momentos em que nos sentimos mais fracos. Momentos em que damos testemunho de Deus e momentos em que tem de ser Deus a dar-nos o Seu testemunho.
Jesus foi tentado pelo demónio (Marcos 1.13), de igual modo também nós o somos. A questão não é bem essa. A questão é procuramos estar na Graça, apesar das tentações. E isso requer a Fé na Misericórdia de Deus, a sua lealdade para conosco, que devemos procurar como modelo nas nossas vidas.
Como seres humanos somos fracos e por isso precisamos da lealdade de Deus: "Bem aventurado aquele que tem o Deus de Jacob por seu auxílio e cuja esperança está posta no Senhor, seu Deus (Salmos 146.5)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Caminhos





Vivemos numa soceidade dominada pelas ideias materialistas, onde campeiam os novos ídolos: consumismo e a exploração desenfreada, apontados a esse ídolo antigo que é o dinheiro e o seu culto. Como tal, vivemos muitas vezes numa aridez espiritual, que nos agrilhoa, subjuga-nos até à depressão, até à destruição do ser humano como pessoa.


E muitas vezes, cada um de nós trespassa para as nossas relações próximas este estado de pensamento, tornando-nos, nós mesmos, em opressores dos outros e preconceituosos em relação e eles. E assim estamos, subtilmente, a afastarmo-nos da vontade de Deus.


Porque Deus abomina a escravatura e para nos libertar da escravidão do pecado que nos enviou o Seu Filho, com a mensagem da redenção.


No Antigo Testamento, em Jeremias (34. 8-22) é-nos relatado como o Senhor ordena a libertação dos escravos judeus, cativos de outros judeus, e como Deus faz ameaças porque os donos desses escravos os aprisionaram de novo, depois de os terem libertado.


Numa primeira análise, Deus fala-nos do respeito que é devido a toda a pessoa humana e nos compromissos tomados com Ele.


Mas há mais: Por Jesus é-nos dada a oportunidadde de libertação do nosso pecado, do renascer do homem novo de que nos fala o apóstolo Paulo (Efésios 2. 15-2 e Cor 5. 17). É esta a oportunidade de libertarmo-nos do pecado que Deus nos dá. Porém, ao mesmo tempo, somos nós mesmos, pela nossa vontade, o nosso desejo, que nos libertamos da situação de escravos do pecado.


No entanto, sedutoras são também as tentações. Sedutoras, no imediato, são as visões do mundo, pelo que fácil se torna sermos seduzidos novamente pela escravidão aos ídolos.


Cristo fala-nos do caminho fácil e do caminho pedragoso, da porta larga e da porta estreita (Lucas 13. 24). Este caminho largo de facilidades e vaidade humana, nos seus múltiplos aspectos, é, justamente, o caminho da escravidão, que segue ao lado do caminho rude da salvação e que tantas veses nos apela sedutoramente...