segunda-feira, 7 de julho de 2008

No grito do desespero

Terramoto de Lisboa- Gravura em Cobre, finais de Século XVIII
Uma irmã em Cristo sofreu numa semana a perda sucessiva de duas pessoas da sua família próxima e que lhe eram queridas. Num momento sentiu-se perdida e sem forças para aguentar e por coincidência, foi nessa altura que lhe telefonei. Ouvi o seu desabafo e a aconselhei o melhor que pude.
Esta situação fez-me lembrar, uma vez mais, a passagem bíblica do Livro de Job.
Job tinha uma vida boa, mas Deus permitiu que o Demónio tudo lhe tirasse, para ver como mesmo no maior do seu sofrimento, ele não abandonaria o seu Deus. E as coisas más, cada uma pior que a outra, sucederam-se na vida de Job. Perdeu os bens, os filhos foram sequestrados e perdeu a própria saúde.
No seu desespero, Job nunca blasfema contra Deus, nunca o renega, mas O interroga. Pergunta-Lhe, mesmo, que mal terá ele feito, para Deus se afastar dele assim?
É um grito, como tantos que lançamos no nosso dia-a-dia, perante os sofrimentos grandes: Onde estás meu Deus? Porque não me escutas? Porque não me auxilias? Que mal Te fiz eu a Ti?
O desespero é próprio do ser humano. É um sentimento animal: quem ainda não viu os animais em fuga desesperada perante o incêndio na floresta ou a batida dos caçadores?
É o desespero que nos leva às interrogações e, no extremo, às imprecações e, mesmo à blasfémia e ao consequente afastamento de Deus. Por isso que o nosso Amor para com Deus e a nossa confiança em que Ele em tudo concorre para o nosso bem, como afirma o apóstolo Paulo (Rms 8. 28), deve ser ainda maior que o nosso desespero.
Job lamenta-se junto dos seus amigos e um deles, Bildade, o suíta, censura Job por arguir com Deus e questiona-o se ele pensa que Deus iria perverter o direito e a justiça. E recomenda: “Mas, se tu buscares a Deus e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia, e se fores puro e recto, Ele, sem demora, despertará em teu favor e restaurará a justiça da tua morada”. (Job 8. 5-6).
É pois, esta, a resposta ao nosso grito de desespero: em vez de revoltarmo-nos contra Deus e de nos sentirmos alvo de injustiça, que apenas nos leva ao deserto estéril, se nesse momento de crise, mais O buscarmos, mais nos apegarmos a Ele, pedindo-lhe a graça da Sua Misericórdia, mantendo a nossa postura de Seu amigo, com a pureza e a rectidão das nossas almas, com a certeza de que Deus, nos envia o Seu Consolador para nos dar as forças que necessitamos.

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