terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Medo que não é medo


Temer ao Senhor,

é o princípio da Sabedoria

(Salmo 111, 10)


Conheço muitas pessoas que são ateias.

Conheço muitas pessoas que são agnósticas.

Conheço muitas pessoas que sob a citação de Karl Marx, "A Religião é o ópio do povo", são abertamente antagónicas à religião e à Igreja. Estas pessoas acusam a religião de ser alienante, e a igreja de usar a religião como instrumento para manipular as pessoas, ao serviço das elites detentoras do poder humano.

E ler este salmo, "Temer ao Senhor é o princípio da Sabedoria", parece confirmar as opiniões destas pessoas: Meter medo é a chave para se alcançar qualquer coisa.

Mas o que é este temer a Deus, cantado pelo salmista? É ter pânico de Deus, fugir Dele?

Quem sofreu a cruel perseguição dos homens, pela guerra, pela tortura, pelo abuso de toda a natureza, agredido até aos limites da sobrevivência, sabe o que é ter medo, um sentimento que nos leva à fuga. Mas este medo do sofrimento, da morte, não é o medo a Deus referido pelo salmista.

Deus não amedronta ninguém, não vem atrás de nós de forma vingativa e gratuita. Deus não nos quer afastar, mas sim atrair a Ele. Deus apenas quer que, o respeitando, cumpramos a Sua Vontade. E a Sua Vontade é a da concórdia e do amor fraterno entre as pessoas. Este temer ao Senhor, não é ter medo de Deus, mas sim O respeitar e respeitar a Sua Vontade, expressa através do ministério de Seu Filho, Jesus. É amar Deus e confiar a nossa vida nas Suas Mãos.

S. Paulo, na sua 1ª Carta aos Coríntios, 6, 12, refere: "Tudo me é permitido, nem tudo me é conveniente". Há pois, aqui, uma sabedoria, a sabedoria de saber escolher que é bom para cada um de nós, sem nos deixarmos dominar. Porque, é o que não me é conveniente que me pode dominar, escravizar, isso sim, alienar.

E esta sabedoria começa, justamente, pelo respeito para com Deus e a Sua Vontade.

Temer ao Senhor, no sentido de, segundo escreveu S. Hilário, haver uma preocupação de não contrariar o dom do amor é então a chave para a verdadeira libertação: a libertação do Espírito e a libertação da "morte segunda", a que se referia S. Francisco, no "Cântico das Criaturas":


Louvado sejas, meu Senhor,

Por nossa irmã a Morte corporal,

Da qual homem algum pode escapar.


Ai dos que morrerem em pecado mortal!

Felizes os que ela achar

Conformes à tua santíssima vontade,

Porque a morte segunda não lhes fará mal!


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Crescer

Giotto di Bondone (Itália, 1266/1337) - Virgem e o Menino entronizados. Galeria dos Uffizi, Florença, Itália.




Estamos já todos mais calmos, depois que passaram as festas: O Natal e o Ano Novo e com ele associado o debate se entrámos ou não numa nova década. Dependerá se o 0 (zero) vai antes do 1 ou depois do 9. Mas esse é um debate que me passa ao lado. O que importa é que esta é uma época de renovação, para a generalidade das pessoas.
Neste domingo com que se começou a presente semana, fui posto face à frase: "Jesus crescia em conhecimento e estatura e na graça de Deus e dos homens", do Evangelho de S. Lucas (2, 52).
Uma boa frase para se reflectir nos dias a seguir a termos feitos os nossos propósitos de mudança do Ano Novo. "Jesus crescia em conhecimento"- Ele é o Filho de Deus, está com o Pai e com o Pai tem a mesma natureza. No entanto, é também um humilde menino que cresce, que aprende. E isto me leva a pensar que a Fé não é um dado adquirido e parado no tempo, na vida dos crentes. A Fé é algo que está em constante crescimento. Como o grão de mostarda da parábola (Mateus 13, 31-33), que germina e cresce até se tornar numa grande árvore. Jesus cresce... Assim, a seu exemplo cresça a nossa fé constantemente, numa vontade cada vez maior de cumprir a Palavra de Deus e de confiar em Jesus e em Deus Pai.
Segundo este texto do Evangelho de S. Lucas, Jesus cresce também em estatura, ganha força física. Mente sã em corpo são. Se o cristão deve ter o valor de proclamar a sua fé, também deve procurar ter uma vida saudável, criando o melhor suporte físico que garanta a continuidade do seu ministério. Não se tem de ser um atleta, basta ser-se saudável ou, pelo menos, fazer por ser saudável.
Contudo não quer isto dizer que os doentes estejam excluídos do cristianismo e de darem o seu testemunho de fé. Bem pelo contrário, a eles está reservado um outro papel: o testemunho da aceitação máxima daquilo que Deus lhes reserva, o testemunho da humildade e da aceitação da vontade de Deus que deve reinar em nossos corações, levado à última consequência.
Crescer na graça de Deus. Um convite que, novamente através da pessoa de Jesus, nos é feito. E o que é este crescer na graça de Deus? Seguir a sua Palavra, fazer a Sua Vontade. Aceitar o dom de Deus. Maria, ao aceitar o seu papel no plano de Deus, como mãe de Jesus, ficou plena da graça do Senhor (Lucas 1, 28-30). O mesmo se passou com os discípulos que acompanham Jesus quando, na ascensão deste aos céus, recebem a graça do Espirito Santo (Acts 2, 1). Em cada dia, podemos crescer mais na graça de Deus, se nos empenharmos na nossa fé e nas boas obras para com os nossos irmãos: dando-lhe atenção, sendo gentis para com eles, os ajudando nas suas dificuldades, nos momentos em que estão doentes, do corpo e da mente. E é justamente na prática das boas obras para com os que nos rodeiam que está a última premissa do crescimento de Jesus, segundo os versículos de S. Lucas: crescer na qualidade da amizade. Que esta não seja uma falsa amizade interesseira ou apenas uma amizade superficial, mas profunda. A amizade em nome de Jesus, que nos leva a interessar verdadeiramente pelos que nos rodeiam, a cuidar deles, das suas necessidades, materiais, certamente e na medida das nossas possibilidades, mas sobretudo as necessidades espirituais, emocionais, bastando uma palavra amiga, um sorriso, um abraço caloroso. Enfim, sermos os bons samaritanos (Lucas 10, 30-37).

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Presente de Natal


Este ano, por razões várias, passo o Natal no Sul do Midlewest dos Estados Unidos, mais precisamente em Oklahoma. O governo estadual tem um programa de apoio aos seus prisioneiros, em que as pessoas podem enviar cartões de Natal e mesmo alguns presentes, em especial àqueles detidos que não recebem a visita de ninguém, nem cartas, nem nada.
Como minha irmã decidiu este ano envolver-se no programa, ao ponto de dizer que a nossa participação nesse projecto era o único presente de Natal que queria, também me envolvi. Afinal, estando eu cá fora, livre, de saúde e até com algum dinheiro, é o mínimo que poderia fazer por alguém que hoje sofre, não me interessando para nada as razões pelas quais foi encarcerado. O meu inglês não é muito famoso, pelo que pedi a minha irmã, nascida americana, que me ajudasse e dando-lhe algumas instruções básicas, e dei-lhe 'carta branca' para actuar. Deste modo, em meu nome e a meu pedido, mandou um cartão de Natal para um dos detidos no 'Mc Leod Correctional Center'.
Ontem à noite, um outro prisioneiro, o nosso contacto de lá de dentro, telefonou-nos e contou-nos que o destinatário do meu cartão de Natal, fora ter com ele emocionado e disse-lhe: 'Deus me abençoou este Natal. Um homem de Portugal, que não me conhece sequer, enviou-me um cartão de Natal. Deus o dirigiu para me abençoar e eu poder receber este cartão antes do ano acabar'. Este prisioneiro, desde que está encarcerado, nunca recebeu nenhuma carta dos familiares ou amigos. Este pequeno e simples cartão foi o seu presente de Natal. O melhor de todos.
Este é o ministério cristão por excelência. Não se trata de gritar aos sete-ventos que a minha igreja é melhor que a do meu vizinho, ou que a minha maneira de me aproximar de Deus é melhor que a maneira de se aproximar de Deus do meu vizinho, que nem é cristão. Trata-se simplesmente de fazer a vontade de Deus: 'Estava na prisão e me visitaste' (Mateus 25, 34-36)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Não temais

'Não temas', disse o Anjo a Zacarias, para anunciar a concepção de João Baptista. E ele, apesar das condições adversas, aceitou o repto de Deus.
'Não temas', disse o Anjo a Maria, quando lhe anunciou que conceberia Jesus, pelo Espírito Santo. E ela, humildemente, aceitou a tarefa que lhe foi imposta: 'Eis aqui a serva do Senhor'.
'Não temais', disse o Anjo aos pastores e este acorreram a Belém para adorar o filho de Deus, recém-nascido.
'Não temas', disse Jesus a Simão e aos seus companheiros e estes abandonaram a sua barca e as suas redes e O seguiram-no.
'Não temas'. É uma frase-chave, várias vezes citada no Evangelho de S. Lucas (Lcs 1, 13; 1, 30; 2, 10; 5, 10) colorido de tantos factos da vida de Jesus. É a frase-chave com que Deus nos convida para a Sua missão.
E já no Antigo Testamento, muitas vezes chama ao Seu ministério os profetas, com esta mesma frase, como no caso de Josué (Josué 1, 9).
Este é um 'não temas' que implica a confiança e fé totais no Dom de Deus. Pode implicar uma mudança de vida, da vida que até agora conhecemos, trocada por uma nova vida iluminada pela vontade de Deus e onde tudo toma uma perspectiva diferente. E as mudanças quase nunca são fáceis e suscitam muitos temores. Jesus disse: 'Se alguém quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a vida vai perdê-la, mas quem perde a vida por amor a mim, esse a salvará' (Lcs 9, 23-24).
O convite de Deus é um convite às mudanças, mas também um convite tremendo, por vezes assustador, e é por isso que Deus também apela à confiança, Ele mesmo ou através dos Seus enviados: 'Não temais'. Este não temer é cada um receber o Reino de Deus com a mesma atitude com que uma criança recebe os dons dos seus pais (Lcs 18, 17), pois 'O Senhor teu Deus está contigo por onde quer que andes'. (Josué 1, 9)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal

Giotto (1266-1337) A natividade (1303-1305) in Capella della’Arena, em Pádua, Itália

Estamos nos últimos dias do Advento e este é um bom momento para recuperar a escrita neste blog: Natal celebra a Vida, através do nascimento de Jesus.
Estamos na 'corrida final' das compras dos presentes, na perspectiva de magníficas refeições repletas de iguarias. Muitos de nós, nesta altura do ano, estamos absolutamente dominados pelos ídolos do dinheiro e do consumismo, onde o Natal perdeu o seu sentido original, para ser dominado pelas manifestações de poder e opulência materialistas, mesmo que não sejam reais, como cenários de papel de um palco de teatro, e marcados através da quantidade de compras que fazemos. Reunimos as famílias em celebrações cada vez mais agnósticas, onde o lúdico ocupou, muitas vezes completamente, o espiritual.
O Natal perdeu, ainda , o seu sentido cristão quando, em nome de um 'politicamente correcto' se apagam as suas referências originais, onde se chega a proibir as referências cristãs nas iluminações públicas da época. E Natal existe, precisa e exclusivamente, porque Jesus nasceu!
Natal é ainda a celebração da Vida, através de Jesus, o filho de Deus, enviado para nos salvar. É a celebração da nova vida de que nos fala S. Paulo (Efs. 2,4-6), onde morre o homem velho, dominado pelo pecado, para, em Cristo, renascer o homem novo, no espírito de Deus.
Recuperemos, pois, o espírito original do Natal, dando azo a mudarmos a nossa vida, reflectindo na oferta que Deus nos faz através do Seu Filho e tão bem expressa no anúncio do Anjo aos pastores: 'Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo:Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo Senhor, na cidade de David (Lucas 2, 10-11).
E com o Anjo e a 'multidão do exército celeste' exultemos nestes dias 'Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens por Ele amados' (Lucas 2, 14)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ao encontro do Deserto

(Ermitério do padre Foucauld na Argélia)

Estamos em vésperas da Páscoa. Para os cristãos este é o momento mais importante da sua vivência religiosa: Cristo passa pelo processo através do qual leva a salvação a todos os que O seguem.
Não me vou alongar em considerações teológicas sobre este assunto. Mas falar da experiência que me está para vir. Dentro de poucas horas parto para o Norte de África, numa missão de solidariedade com os povos do Sahara. Vou para o deserto. Vai ser uma experiência interessante a continuação de algum diálogo ecuménico com estes muçulmanos sunitas: afinal somos todos filhos de um mesmo Deus. Vai ser um encontro com os locais das primeiras expansões do Cristianismo. Basta, por exemplo, lembrar que Santo Agostinho era do Norte de África. Vai ser um encontro com o ambiente de excepção que tanto inspirou Charles de Foucauld e que o levou a uma vivência única da mensagem cristã. Sobretudo desejo que seja, uma vez mais, um encontro com Deus. Um encontro com Deus nesta altura especial da celebração pascal.
A Paz de Cristo convosco todos. Que a memória da Paixão de Jesus, inspire os vossos corações e a vossa Fé.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Entre o grito e o silêncio


Há momentos que Deus nos leva a gritar: a gritar a Sua Mensagem, a gratidão por Ele nos acompanhar, por nos dar a Vida. Mas há outros momentos, em que Deus nos chama a apenas sussurrar ou mesmo ao silêncio, para ouvirmos as nossas vozes interiores, a forma como Ele fala nas nossas almas. São as travessias no deserto, que se nos põem como desafios à nossa Fé, à reflexão sobre o que estamos a desempenhar nas nossas vidas.
Actualmente passamos por momentos de grandes dificuldades, assolados pelo espectro da crise, que de uma forma ou outra, mais ou menos profundamente, nos toca. Um momento de reflexão.
Terminado o Carnaval, no calendário católico, entrou-se no período da Quaresma. Se em tempos passados, a própria Igreja Católica, usou o ideal deste período que antecede a Páscoa, para fins muito pouco evangélicos, não devemos, porém recusar olhar para o significado deste período de jejum e abstinência. Talvez hoje não faça tanto sentido a abstinência de se comer carne às sextas-feiras, quando o peixe já é mais caro que a carne. Talvez hoje não faça tanto sentido o jejum dos alimentos, quando o dia-a-dia já nos leva a desequilíbrios brutais na nossa qualidade de vida. Mas fará todo o sentido a abstinência como disciplina das nossas vidas, com vista ao cumprimento da Vontade de Deus, o jejum dos bens e das atitudes com vista à partilha com aqueles que ainda têm menos que nós: não só a partilha dos bens materiais mas também a partilha das atenções e dos sentimentos.
Fará sentido na Quaresma reflectir na pergunta: "Porque odiei a disciplina e o meu coração desdenhou a correcção? (Prov. 5.12).
A paz de Deus em vossos corações
Fará sentido a abstinência como disciplina das nossas vidas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Apóstolo Paulo - 2000 anos de testemunho

(Ruínas da cidade de Antioquia de Pisidia, antiga província romana da Galátia, hoje Turquia e onde Paulo pregou, juntamente com Barnabé. Foto de Brian Morley)
Celebra-se este ano os 2000 anos do nascimento do Apostolo Paulo. E é uma boa ocasião para olharmos com mais atenção para os seus escritos e reflectirmos na sua mensagem.
De perseguidor de cristãos, este judeu educado na esfera da cultura romana, passou a ser a principal figura do Cristianismo, depois de Jesus Cristo. E a sua dimensão agiganta-se na medida em que transportou o Cristianismo da teoria à prática, do mundo judeu para o mundo dos 'gentios', a tal ponto que se pode dizer que há um cristianismo antes de Paulo e um cristianismo depois de Paulo.
Nos seus escritos revela-se um homem convertido e completamente apaixonado pela figura de Cristo e pela sua Mensagem de Salvação. Fazedor de tendas, depois da conversão, é o maior dos pastores, explicando os ensinamentos de Cristo a cada comunidade a quem escreve e a cada um de nós que, posteriormente, lemos as suas epístolas. Fazedor de tendas que se considera sobretudo cristão e não seguidor desta ou daquela igreja e, ainda menos, vivendo e enriquecendo à custa da Igreja, ao contrário do que acontece com muitos dos homens que se intitulam da Igreja.
Paulo é o apóstolo lúcido e louco. Lúcido quando diz que ‘Tudo me é permitido, mas nem tudo me é conveniente” e louco pela sua entrega a Deus através de Jesus, ao ponto de escrever "Já não sou em quem vivo mas Cristo que veio em mim (Galatas 2.20).

Olhemos pois, com atenção para este homem, aprendemos com ele através dos seus escritos e reflictamos que Cristianismo estamos a levar nas nossas vidas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Lealdade de Deus


Há momentos em que Deus nos chama para gritarmos o Seu testemunho. Mas também há momentos que Deus nos chama para uma pausa. Para pensarmos naquilo que somos, os caminhos que trilhamos, naquilo em que nos estamos a transformar.
Estar na Fé não é estar estático. Há momentos em que nos sentimos mais fortes e momentos em que nos sentimos mais fracos. Momentos em que damos testemunho de Deus e momentos em que tem de ser Deus a dar-nos o Seu testemunho.
Jesus foi tentado pelo demónio (Marcos 1.13), de igual modo também nós o somos. A questão não é bem essa. A questão é procuramos estar na Graça, apesar das tentações. E isso requer a Fé na Misericórdia de Deus, a sua lealdade para conosco, que devemos procurar como modelo nas nossas vidas.
Como seres humanos somos fracos e por isso precisamos da lealdade de Deus: "Bem aventurado aquele que tem o Deus de Jacob por seu auxílio e cuja esperança está posta no Senhor, seu Deus (Salmos 146.5)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Caminhos





Vivemos numa soceidade dominada pelas ideias materialistas, onde campeiam os novos ídolos: consumismo e a exploração desenfreada, apontados a esse ídolo antigo que é o dinheiro e o seu culto. Como tal, vivemos muitas vezes numa aridez espiritual, que nos agrilhoa, subjuga-nos até à depressão, até à destruição do ser humano como pessoa.


E muitas vezes, cada um de nós trespassa para as nossas relações próximas este estado de pensamento, tornando-nos, nós mesmos, em opressores dos outros e preconceituosos em relação e eles. E assim estamos, subtilmente, a afastarmo-nos da vontade de Deus.


Porque Deus abomina a escravatura e para nos libertar da escravidão do pecado que nos enviou o Seu Filho, com a mensagem da redenção.


No Antigo Testamento, em Jeremias (34. 8-22) é-nos relatado como o Senhor ordena a libertação dos escravos judeus, cativos de outros judeus, e como Deus faz ameaças porque os donos desses escravos os aprisionaram de novo, depois de os terem libertado.


Numa primeira análise, Deus fala-nos do respeito que é devido a toda a pessoa humana e nos compromissos tomados com Ele.


Mas há mais: Por Jesus é-nos dada a oportunidadde de libertação do nosso pecado, do renascer do homem novo de que nos fala o apóstolo Paulo (Efésios 2. 15-2 e Cor 5. 17). É esta a oportunidade de libertarmo-nos do pecado que Deus nos dá. Porém, ao mesmo tempo, somos nós mesmos, pela nossa vontade, o nosso desejo, que nos libertamos da situação de escravos do pecado.


No entanto, sedutoras são também as tentações. Sedutoras, no imediato, são as visões do mundo, pelo que fácil se torna sermos seduzidos novamente pela escravidão aos ídolos.


Cristo fala-nos do caminho fácil e do caminho pedragoso, da porta larga e da porta estreita (Lucas 13. 24). Este caminho largo de facilidades e vaidade humana, nos seus múltiplos aspectos, é, justamente, o caminho da escravidão, que segue ao lado do caminho rude da salvação e que tantas veses nos apela sedutoramente...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Revelações


(Michelangelo - Cappella Sistina 1508-1512. Promenor do tecto. Criação do Homem)




Todos procuramos uma resposta às questões que temos. E nem sempre encontramos as respostas por que ansiamos. Para os cristãos, que pautam a sua espiritualidade pelos Evangelhos, é por obra do Espírito de Deus que nos são dadas a conhecer as revelações - que nos é dado o entendimento da Palavra.


Não têm de ser necessariamente as revelações espectaculares, as professias abertas a todo o povo entre a manifestação das potestades, mas bastam as pequenas revelações nas nossas almas. sinais que nos reconfortam nas nossas angústias, que respondem às nossas dúvidas.


Se nos lembramos de Deus quando nas nossas aflições O invocamos e pedimos auxílio, de igual modo nos devemos lembrar d'Ele quando recebemos as suas Graças e deste modo nos mostrarmos gratos pelos Seus sinais.


"Agradeço-te, oh Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque mostraste aos simples as coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. Sim, Pai, agradeço-Te, por ter sido essa a Tua vontade" (Lucas 10. 21).


Com efeito, a mensagem de Jesus e a sua revelação não se destina apenas aos doutores da Lei, da Igreja, aos teólogos, mas a cada um de nós, na nossa humuldade e simplicidade, na nossa ignorância. Por isso que Deus nos concede, através do Seu Espírito, as graças de ser revelado o significado da Sua Palavra e, consequentemente, da Sua Vontade.




O Espírito de Deus em vossos corações.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Por entre as estrelas, Abraão.



(Adriaen van der Werff - Sara apresenta Agar a Abraão. 1699. Óleo sobre tela. Staatsgalerie, Schleissheim, Munique, Alemanha)


Ontem à noite, nos arredores de Sintra, calhou olhar para o céu. Estava límpido, de uma transparente atmosfera e as estrelas brilhavam intensas. E lembrei-me da promessa de Deus a Abraão: "olha para o céu e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: assim será a tua posteridade" (Gen. 15. 5).

Abraão e sua mulher, Sara, eram já velhos e Deus promete-lhes o que para eles era impossível: um filho que continuaria a descência do patriarca de Harã. Deus prometeu e Abra~~ao teve fé na promessa divina. Não foi uma fé fácil. Abraão questiona Deus de como será possível o milagre por ele e a mulher serem já velhos. Não foi uma fé fácil, porque há um momento que Abraão, depois de cumprir tudo o que anteriormente Deus mandara fazer, vê que continua sem filhos de Sara e antevê que a sua descendência apenas será continuada por Isamael, o filho da serva Agar. Mas apesar de tudo, apesar das suas dúvidas momentâneas, Abraão aceita a promessa de Deus e a sobrepõe às suas dúvidas, acreditanto firmemente nela.

Se existe a fé de Abraão, também existe a humildade e a obediência. E deste modo ele foi exaltado por Deus e tornou-se o 'pai' de muitas nações.

Olhando a estrelas de ontem à noite, veio nos meus pensamentos este episódio bíblico, esta fé exemplar e inteligente, este exemplo para as nossas vidas, sempre actual, apesar dos milénios que tem.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Orar em conjunto

( Serviço religioso ecuménico, pela paz mundial noParque Memorial da Paz,
Hiroshima, Japão, 1999)



A oração a sós, diária e em cada momento, é a 'nossa conversa com Deus'. Ele é O amigo, que nos ouve, que nos aconselha, que nos conforta. É o amigo fiél, que não trai a nossa amizade por Ele, a nossa fé nas Suas capacidades.


No entanto, também válida e útil é a oração em conjunto com os outros irmãos na Fé. O próprio Jesus Cristo, por cujos Evangelhos, seguimos a vontade de Deus, afirmou: "Em verdade também vos digo que, se dois de entre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus, Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, ali estou no meio deles" - (Mateus, 18. 19-20).





Muito se tem discutido sobre o poder da cura pela oração. Há quem acredite que apenas a oração será suficiente para curar os males do corpo e da alma. Há quem afirme convictamente que a oração em anda influí no estado de saúde dos doentes. Cada pessoa tem a postura que quiser.


E qual deve ser a postura do cristão? Não sei responder de forma cabal. Há um princípio básico que não pode ser renegado: o da Fé. "Felizes os que crêem sem ter visto" (João 20. 29) afirma Jesus, face à incredulidade de Tomé sobre a Sua Ressurreição. e em Tiago 1.6 é recomenado ao cristão que: "Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte". Então, a Fé é a âncora do crente.


Pessoalmente acredito no poder da Fé e na capacidade de cura da oração, mas não desprezo as soluções que a medicina me oferece. Porque se Deus permite que a Medicina exista, é porque é também um dos Seus instrumentos. Alio, pois, as duas coisas: os tratamentos físicos e a Fé em que Deus me pode ajudar a curar, de uma forma mais rápida, mais confortável. sei lá que mais!.





Mas há outro aspecto da oração, quando veículo de intersessão: uma forma de praticarmos a misericórdia, esquecendo-nos um pouco de nós mesmos, para dedicarmos a nossa atenção ao outro, em especial ao que sofre, ao que está abandonado, ao que necessita de ser alvo do nosso amor. Enfim, uma forma de fazermos a verdadeira Caridade, que é de abdicarmos de nós mesmos pelo Outro.


Hoje convido-vos a orar por Gary Smith e a mulher Emilie. São meus irmãos adoptivos e inspiração na minha Vida, pelo seu amor a Deus. A Gary surgiu-lhe um caroço no pescoço, onde há dois anos retirou um outro, de origem cancerígena. E está muito assustado com a situação, sobretudo enquanto não é visto pelo médico, que de momento está fora. Convido-vos a orar para que Deus lhes dê a Força que necessitam agora, que Ele lhes envie o Consolador que Jesus prometeu. (João 14. 16-20). Convido-vos a orar para que a situação não e agrave mais e para que Deus inspire e guie o médico, afim de poder tratar de forma eficaz Gary. E, finalmente, convido-vos a orar para que o Espírito Santo os ilumine e lhes dê a força para aceitar pacificamente a Vontade de Deus, seja ela qual for.

A paz de Deus em vossos corações.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Humildade e harmonia


A sociedade portuguesa, nos tempos foi abalada por alguns crimes de grande impacto mediático.



Estes crimes levam um cristão a reflectir sobre a falta de Deus na vida dos homens.



Podemos pensar em justificações sociológicas para a prática destes crimes.



Podemos pensar em justificações médicas para a prática destes crimes.



Mas a verdade é que para cada pessoa que comete um crime, seja ele qual for, existem centenas de milhares de outros seres humanos em igual ou pior situação, que não praticam crimes semelhantes ou quaisquer crimes, e que sentem repugnância por tal.



Serão cristãos ou, pelo menos, crentes, estes outros milhares? Não necessariamente. Deus tem caminhos que a nossa humilde condição humana nunca chegará a compreender, pelo que nem vale a pena questionar ou julgar.



Olhemos outra realidade: quem aceita Deus nas suas vidas, por Jesus Cristo, fica dotado de uma ferramenta e de uma força muito grande para não praticar o mal. Não nos livra de sermos assediados pela tentação, mas nos livra de aceitarmos a tentação. Porque aceitar a Deus é unicamente fazer a Sua Vontade e Deus nunca disse para matarmos, roubarmos, cometer adultério, mentir, enfim, praticar qualquer espécia de iniquidade. Pelo contrário: quer que façamos o oposto, como expressa nos Mandamentos.



Ao aceitar a Deus, ganhamos também a força da Fé. "Assim, se Cristo dá alguma coragem, se o Seu Amor dá consolação, se o Seu Espírito dá união e se conhecem o amor de uns pelos outros, então peço-vos que me dêem a grande satisfação de viverem em harmonia" (Filipenses 2 1-2).



É esta coragem e esta consolação no Amor que dá força ao cristão para vencer a tentação e o mal, não se desviando do caminho de Deus e da Salvação.

sábado, 23 de agosto de 2008

Exemplo de vida

Para Pensarmos. Fazer a nossa parte. Hoje. Amanhã pode ser tarde demais. Porque nunca sabemos nem o dia nem a hora em que seremos chamados a prestar contas.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Fidelidade de Deus


Deus é fiel para com os homens. As Suas promessas mantêm-se válidas, ao longo dos tempos. Elas são imutáveis. O que muda são os desejos dos homens. Por isso, Deus não realiza aquilo que nós queremos, aquilo que nós pensamos ser o melhor para nós, mas sim aquilo que Ele sabe ser verdadeiramente bom para nós. Pode ser, sim, que aquilo aquilo que nós queremos coincida com aquilo que Deus sabe ser melhor para nós.


No entanto, as promessas de Deus mantêm-se mesmo que os homens não creiam. E os homens recolhem segundo a justiça do que semeiam.


O apóstolo Paulo refere, em Romanos 3, que Deus é verdadeiro, mas são os homens que estão sujeitos à mentira e serão pelas suas palavras justificados e julgados. Mais, o apóstolo chama a atenção de que todos estamos sujeitos ao pecado e a nossa condição, seja de raça, seja social, seja de religião, não nos livra, à partida, do pecado. O que nos justifica perante os olhos de Deus é a nossa fé em Jesus Cristo, onde também não é feita distinção. "É por ventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também é dos gentios, visto que Deus é um só, o qual justificará pela fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso" (Rom. 3 29).

Quem tenha olhos, que o leia.

Que a paz esteja convosco.


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Cidade de Deus, cidade dos Homens

Agostinho de Hipona, na sua obra 'Cidade de Deus' defende, de um modo geral, que existem duas cidades: a de Deus, dedicada a seguir a Palavra do Senhor e a cidade dos interesses mundanos. Posteriormente, este conceito foi tomado no sentido de que a Cidade de Deus era única e exclusivamente a Igreja. No entanto, assim não foi entendido por Agostinho: o que ele defendeu foi a interpretaçao da história da humanidade como o conflito entre a Cidade de Deus, inspirada no amor à Deus e nos valores que Cristo pregou, presentes na Igreja, e a Cidade humana, baseada nos valores imediatos e mundanos. Essas cidades estariam presentes na alma humana, e no final a Cidade de Deus triunfaria.
Deste modo, estas duas cidades são mundos da alma humana e se em termos físicos, na cidade dos Homens há cidadãos da Cidade de Deus - homens tementes a Deus e seguidores da Justiça -, na Igreja também não faltam cidadãos da cidade dos homens: aqueles membros ecesiásticos que acabam por se afastarem da virtude para servir os interesses humanos.
Em todas as denominações da Igreja, da Igreja Católica (Romana ou Ortodoxa), às Igrejas evangélicas, não faltam estes cidadãos da cidade dos homens: dominados pela ambição, seja do poder político, seja do poder económico; dominados pelo orgulho, com a convicção de que são detentores da verdade absoluta, confundindo a essência da Fé com a tradição.
Tenho que confessar que sendo a Igreja de Cristo apenas uma, custa-me entender as diversas comunidades ditas cristãs, por vezes odiando-se de morte umas às outras.
E vem-me à mente o Profeta Malaquias: 'O filho honra o pai, e o servo o seu senhor. Se Eu sou o Pai, onde está a minha honra? E, se Eu sou o Senhor, onde está o respeito para Comigo? (Malaquias, 1. 6.).
Paulo escreveu diversas cartas às Igrejas por onde passou. A algumas ele elogia, mas a outras repreende-as, porque se estavam a afastar da essência da Mensagem de Cristo. Mas cada uma destas igrejas é apenas uma, na cidade em que está: é a Comunidade de Cristo. A comunidade de Cristo em Efésio, em Corinto, em Roma, em Filipo, em Colonos, etc.
Posso ser muito ignorante e certamente que o sou, mas não encontro nas suas cartas referências a várias igrejas num mesmo local: ou são seguidores de Cristo ou não são, sendo, por exemplo, judeus ou pagãos.
Àqueles que se dizem seguidores de Cristo, deve ser a Bíblia - no Antigo e Novo Testamento, porque o segundo complementa e completa o primeiro - o Guia de Vida. Mas também é necessário o discernimento suficiente para entender o que é essencial e acessório. O cerne dos valores, que se mantêm actuais ao longo dos tempos, e o que resulta apenas das circunstâncias das épocas.
Por outro lado, conforme Paulo escreveu aos Romanos:
"Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão.
"Eu sei e estu persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesmo impura, salvo para aquele qeu assim a considera; para esse é impura.
Se, por causa de comida, o teu irmão se entristece, já não andas segundo o amor fraternal. (Romanos 14 14.15).
Que tudo isto nos sirva de reflexão sobre o que é essencial e acessório no seguimento da Palavra de Deus.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Chamados a iluminar

(Estátua alusiva à caridade, inspirada na I Corintios de Paulo.
Grand Lodge of Pennsylvania in Philadelphia. USA)


Em algum momento das nossas vidas fomos chamados por Deus. De múltiplas formas, desde a tradição de uma educação familiar, até à revelação súbita, como Paulo na estrada de Damasco. Não importa forma, o que importa é que ouvimos o chamamento do Pai. Podemos responder-lhe ou não. Isso fica a nosso critério, porque no Seu Amor, Deus nos dá essa liberdade.


Mas até respondemos afirmativamente ao chamamento de Deus e desejamos O descobrir, tornamo-nos seus amigos, que a Sua Palavra seja um modelo pelo qual pautamos as nossas vidas. E respondermos afirmativamente a Deus, pelo chamamento em Jesus Cristo, é o assumir de um compromisso.


Não podemos ser cristãos para ficarmos escondidos.


"Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada num monte, nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumiar todos os que se encontram em casa.


"Assim, brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mateus, 5 14-16).


Todavia mostrarmo-nos aos homens requer humildade, para não cairmos no pecado do orgulho dos fariseus nas primeiras filas do templo, batendo com a mão no peito.


A melhor oração que podemos fazer é cumprir a Vontade de Deus, em cada momento das nossas vidas, do nosso dia-a-dia. E essa vontade é a de Amar a Deus acima de tudo. E amar a Deus é também darmos-Lhe graças por tudo de bom que Ele nos dá em cada dia. Seja uma luz especial na manhã, um pássaro que se cruza no nosso caminho e nos desperta para a beleza, seja uma vitória em nossas vidas, em especial as vitórias espirituais, seja um sentirmo-nos amados pelos outros. Enfim, tantas coisas pelas quais podemos agradecer a Deus nos permitir reparar nelas.


E outra das vontades de Deus é a de amarmos os outros. Termos um olhar de misericórdia e sermos suaves a jugá-los. Nos interessarmos verdadeiramente pelas pessoas que estão nas nossas vidas, sem procurar tirar qualquer vantagem delas.


E é com Deus em nossas vidas, nesse jeito, pelo nosso exemplo, que nos tornamos a luz do mundo e nos mostramos aos homens, não para que eles nos glorifiquem, mas para que entendam que aquilo que fazemos o devemos ao Pai e O glorifiquem porque permite tais coisas boas.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Deus nos convida

Cristo Redentor- Baía de Guanabara- Rio de Janeiro

No capítulo inicial do Livro de Isaías, depois de afirmar que não suporta a falsidade, Deus deixa os sinais do caminho que leva a Ele:
'Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos actos de diante dos meus olhos. Cessai de fazer o mal.
'Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor, defendei o direito do órfão, pleiteai a causa as viúvas.
'Vinde pois e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, ele se tornarão brancos como a neve, ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.
'Se quiserdes e se me ouvirdes, comereis o melhor desta terra.
'Mas se recursardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada, porque a boca do Senhor o disse" (Isaias 1. 16-20).
Lavarmo-nos e purificarmo-nos. Não é o lavar físico, mas o lavar espiritual. Limpar os nossos pensamentos do mal, pedir ao Senhor que não nos deixe cair na tentação e, se ela nos toca, que nos livre do mal. E ao mesmo tempo, tomarmos a atitude do Amor e da Justiça para com o próximo, em o defendendo e o respeitando.
Deus nos convida a ir ter com Ele e a pensarmos com a razão sobre as nossas faltas: reflectirmos sobre os nossos actos e tomarmos arrependimento daqueles que fizémos e nos afastaram de seguir a Vontade de Deus. É esse arrependimento que, aos olhos de Deus, nos lava e purifica.
Deus nos convida e, ainda assim, continua a dar-nos a liberdade: ' se quiserdes e se me ouvirdes'. Basta querer para podermos ouvir o Senhor, nas múltiplas vozes que fala connosco: através da Biblia, mas também beleza do que nos cerca, através dos sonhos que temos e dos pensamentos que nos advém quando nos entregamos a Deus e pedimos que nos fale pelo Espírito Santo, através da pregação na Igreja, através das palavras dos nossos amigos verdadeiros e que também são amigos d'Ele.
Deus nos convida e promete que comeremos o melhor que há nesta terra. Mas Deus não se refere às iguarias mundanas. O melhor e mais raro ou caro dos pratos gastronómicos termina do mesmo modo que a comida mais simples e banal. E isso é pouco. Não, o que Deus nos fala é de outro alimento, muito mais rico, muito mais compensador. Jesus disse: 'O verdadeiro pão do céu é o meu Pai. Porque o pão que Deus dá é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo(...) Eu sou o Pão da Vida. Quem vem a Mim nunca mais terá fome, e quem crê em Mim nunca mais terá sede.' (Jo. 6. 30-35). É este Pão, esta Palavra de Vida de que Deus fala e promete.
Deus nos convida e nos avisa, também, que tendo-O conhecido e mantivermos a rebeldia, dos nossos actos teremos as consequências. E continua a dar-nos a liberdade de escolha...

Lamento de Deus




(Profeta Isaías - António Francisco Lisboa, O Aleijadinho, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos - Congonhas - Minas Gerais -foto de Carlos Eduardo Fiusa Morais)



'Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim' (Isaís 1. 2)
O Livro de Isaías começa com um lamento do próprio Deus. E este lamento é expressão da Misericórdia divina, porque sendo Deus todo-poderoso, podia muito bem, sem ter de dar contas a ninguém, extinguir, assim de uma penada, aqueles que estão revoltados contra Ele. No caso do tempo de Isaías, o próprio povo de Israel.
Deixemos o povo de Isreal do tempo de Isaías e olhemos para o povo do nosso tempo, nós e as pessoas que nos cercam. E continua a haver multidões de pessoas revoltadas contra Deus. E o lamento feito em sonhos proféticos a Isaías, continua actual nos dias de hoje. Porque quando Deus se lamenta do esquecimento, da ingratidão dos homens, Ele apenas está avisando, em vez de nos destruir furiosamente.
Criando-nos à Sua imagem e semelhança, Deus deu-nos a liberdade do livre arbítrio. Que liberdade maior pode haver, essa de escolhermos o caminho que quisermos? Mas também, que responsabilidade acarretamos aos nossos ombros! São as escolhas que fizermos que ditarão o nosso futuro. Não só na terra, enquanto tivermos esta vida primeira, mas e sobretudo, depois, quando tivermos a vida segunda: ou na Glória de Deus ou no sofrimento do Demónio.
Deus deu-nos a liberdade de escolha, mas por causa da Sua misericórdia não nos aniquila quando nos desviamos do Seu caminho, pelo contrário, se lamenta, nos avisa. E isto porque Deus espera sempre o nosso arrependimento, a nossa entrega a Ele, até ao último momento, aquele, a partir do qual apenas recebemos o que semeamos ao longo da nossa vida.
Entregarmo-nos a Deus, não é só pedir-lhe aquilo que necessitamos mas, sobretudo, mostrarmos-Lhe a nossa gratidão por cada momento que temos na nossa vida. Se não nos esquecemos de Deus, quando as coisas nos estão adversas, também não nos esquecemos d'Ele quando as coisas nos vão de feição.
E quando as coisas não nos correm como desejamos, devemos pensar, em vez de gritarmos de revolta contra Deus, se não estamos a ser postos à prova. Se não é a nossa Fé e a nossa confiança em Deus que está a ser testada, para se tornar mais forte?
A Confiança em Deus nos vossos corações