No prédio onde vivo, viva um casal de certa idade. Para o andar em frente, foram viver, há coisa de ano e meio, dois anos, uns brasileiros. Gente humilde, que procura neste país ganhar o seu salário para cumprir na sua terra os seus objectivos. São pacatos, mas isso não impede que manifestem a sua alegria natural. Uma tarde, um pouco de música, no Verão, conversas até mais tarde, enfim, nada demais.
A senhora desse casal, que tem um feitio muito especial, resolveu implicar com os ditos brasileiros: porque faziam barulho, porque entravam de madrugada (alguns deles trabalhavam à noite), por isto e mais aquilo. Foi fazer queixa a um dos senhorios e teve do outro senhorio intervir de uma forma mais expedita para parar esta perseguição na realidade xenófoba. As coisas acalmaram, felizmente.
Aconteceu que neste fim de semana, a senhora saiu à rua para ir comprar uns remédio para o marido e quando chegou a casa foi dar com este morto. Gritou na sua aflição. E quem lhe acudiu, ajudou a pôr o senhor deitado e estiveram sempre com ela, naquele momento de maior necessidade, em que chocada a mulher se sentia desorientada e perdida foram, justamente, estes brasileiros.
Mais tarde a senhora reconheceu o gesto desta gente, pediu-lhes desculpa de ter falado deles e agradeceu-lhes o apoio que eles lhe deram na hora em que ela mais precisou.
Este episódio fez-me reflectir na justiça de Deus. Esta mulher, não teve uma atitude cristã para com os seus vizinhos, ao falar deles, implicar com eles, os denunciar ao senhorio por uma questão sem qualquer importância. Mas Deus não lhe mandou nenhum castigo. E se o marido da senhora morreu, teve que ver, não só com a idade, mas também com o facto de há mais de 30 anos ele ser um doente cardíaco, ter sofrido intervenções cirúrgicas e, creio, ter um pacemaker. Portanto, nada de mais. A justiça divina manifestou-se porque, na sua hora de aflição, foram aqueles com quem ela tinha implicado -e que eles sabiam disso - puseram para trás das costas todas estas questões e a socorreram e a auxiliaram até chegar outros socorros. A justiça divina revelou-se, não na vingança, mas na misericórdia que esta gente teve para com a senhora, na sua bondade, que acabou por tocar seu coração e fez ela reconhecer como tinha procedido mal anteriormente.
"É melhor cair nas mãos do Senhor, cuja misericórdia é grande, que cair nas mãos dos homens" (II Samuel 24. 14)
